Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe – alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.
No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.
* * *
Emanou descaso, a rebolar apressada, atravessando a frente da televisão e avisando-os que sairia naquela noite – sem dar-lhes tempo para discussão.
Márcia trancou-se no quarto (sorrindo largo, com a língua entre os dentes, antecipando a noitada) e olhou-se no espelho. Caçadora noturna da urbe, sabe-se gostosa. Corre os dedos pelos cabelos lisos e cumpridos. Tem os olhos de um castanho morno, o nariz adunco. A boca larga-lânguida sorria-lhe de volta. Apertou os seios frente aos espelhos: é gostosa, ela sabe.
Ligou seu rádio, aumentou o volume do som e passou a perambular pelo quarto (escolhendo roupas, maquiagens, separando lingerie) enquanto dançava animadamente. Cantava alto, sabendo que incomodava todos na casa. Tomou banho rapidamente. Dançou, feliz, enquanto tomava banho. Márcia cantava a plenos pulmões.
Perfumou-se. Adornou o quadril redondo e orgulhoso com uma calcinha minúscula. Falava com a amiga ao celular, dançando ao som da música alta e, frente ao espelho, arrumou os bicos dos seios sob a blusa branca, justa. O decote tão profundo quanto os desejos que guarda dentre as pernas. Vai caçar e é gostosa, sabe.
Márcia desliga o celular ao escutar os passos arrastados da tia pelo corredor, provavelmente, tomando coragem para adentrar no quarto da sobrinha. Joga o celular rapidamente sobre a cama e começa a se maquiar, fingindo concentração.
Enquanto sensualiza o rosto (rímeis, batons, blushes) a tia entrou. A velha andou pelo quarto, silenciosa, colocando uma ou outra coisa no lugar, como quem não quer nada. A tia sentou, finalmente, na cama e, muda, observou Márcia: vestida apenas com a calcinha minúscula e a blusa branca (de decote tão profundo quanto a vulgaridade necessita). Observa Márcia curvada em direção ao espelho, os cabelos escuros são uma cortina que desce pelas costas. Márcia é uma calcinha minúscula e olhos escurecidos pela maquiagem.
A tia observa, e sua boca fica entortada (os olhos anuviados e desgostosos) com silêncios de reprovação. Com o rosto voltado para o lado, como se tivesse medo de encarar Márcia, a tia diz baixo e devagar (a voz fraca):
— Você está vulgar.
Márcia não se dá ao trabalho de virar-se pra tia. A boca fortemente pintada sorri através do espelho. Ela avisa de volta (cínica):
— Você não é minha mãe.
Márcia se volta pra tia enquanto escova o cabelo e acrescenta:
— Irmã da mãe; e não mãe. – fingi amenizar as palavras sublinhando-as com os olhos enviesados e riso na voz. Dá as costas à tia; alarga o sorriso e torna a passar o rímel nos cílios.
A boca velha da tia entorta-se ainda mais. A tia sai do quarto, quieta, sempre engolindo, sozinha, brigas de tempestades. Márcia liga para amiga, combina horários e locais enquanto escolhe a sandália: gargalha comentários, riem do chefe, aumenta o volume da música para a amiga ouvir. É gostosa, sabe.
Desliga o celular, veste calça jeans justíssima. Aumenta música: frente ao espelho testa um sorriso trocista, testa um olhar sexy, um rosto sério, um franzir engraçadinho do nariz e confere sua gostosura: observa o movimento dos seios e dos quadris ao descer, dançando, até o chão.
Márcia tenta sair despercebida. A tia, da cozinha, chama-a para que tome a dose noturna dos remédios. Márcia pára à porta do aposento: a tia, mulher insossa, lava a louça; e o tio, homem trabalhador, janta a comida carinhosa da esposa, merecida após um dia árduo de labor. Mesmo que o rímel o baton o blush a base a sombra estejam intactos, Márcia sente a maquiagem escorrer devagar e espessa de inflexão. Mesmo que intacta, sente a maquiagem escorrer quando, ao observar essa sua família, tenta se lembrar se fora ela (aos quatro anos de idade) ou os tios (quando abriram os braços e a casa) que estipularam que nunca os chamaria de pai e mãe. Dose de amargura.
A tia, um horror de solicitude e carinho, já havia preparado o copo d’água com os comprimidos dispostos ao lado. Márcia senta ao lado do tio, que está a jantar, e toma seus remédios – amargos, amargos. Ela e o tio conversam animadamente sobre a noitada que Márcia terá. A tia avisa baixinho, voz de sempre quase medo: você está vulgar. Márcia (exasperada com a velha) diz que está na moda, diz sorrindo que atia não sabe o que está na moda. O tio ri e, virando-se para a sobrinha, avisa-a: você está bonita, não ligue para a tia.
Tio coloca uma mão na coxa de Márcia, do lado interno da coxa. A mão sobe, lenta, sôfrega, em direção ao sexo e desce: uma, três vezes.
Márcia sorri para a tia. Sorriso salgado de vontade de chorar, porém duro e cínico – feito metal entrando na carne. Márcia tem vontade de sussurrar com troça: vê isso, sua velha? Vê? A tia, feita de medos e carinhos, desvia o rosto – engolindo tempestades.
Márcia levanta-se, com pressa. Márcia sai da cozinha, barulho da sandália ressoando pelo silêncio que era o assoalho. Márcia sente nojo dos seus seios altos, da calça que desvela sua bunda, dos saltos finos e brancos da sandália. Tem vontade de vomitar os remédios que entopem seu estômago.
* * *
Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe – alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.
No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.
