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Dose de Amargura

Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe – alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.

No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.

* * *

Emanou descaso, a rebolar apressada, atravessando a frente da televisão e avisando-os que sairia naquela noite – sem dar-lhes tempo para discussão.

Márcia trancou-se no quarto (sorrindo largo, com a língua entre os dentes, antecipando a noitada)  e olhou-se no espelho. Caçadora noturna da urbe, sabe-se gostosa. Corre os dedos pelos cabelos lisos e cumpridos. Tem os olhos de um castanho morno, o nariz adunco. A boca larga-lânguida sorria-lhe de volta. Apertou os seios frente aos espelhos: é gostosa, ela sabe.

Ligou seu rádio, aumentou o volume do som e passou a perambular pelo quarto (escolhendo roupas, maquiagens, separando lingerie) enquanto dançava animadamente. Cantava alto, sabendo que incomodava todos na casa. Tomou banho rapidamente. Dançou, feliz, enquanto tomava banho. Márcia cantava a plenos pulmões.

Perfumou-se. Adornou o quadril redondo e orgulhoso com uma calcinha minúscula. Falava com a amiga ao celular, dançando ao som da música alta e, frente ao espelho, arrumou os bicos dos seios sob a blusa branca, justa. O decote tão profundo quanto os desejos que guarda dentre as pernas. Vai caçar e é gostosa, sabe.

Márcia desliga o celular ao escutar os passos arrastados da tia pelo corredor, provavelmente, tomando coragem para adentrar no quarto da sobrinha. Joga o celular rapidamente sobre a cama e começa a se maquiar, fingindo concentração.

Enquanto sensualiza o rosto (rímeis, batons, blushes) a tia entrou. A velha andou pelo quarto, silenciosa, colocando uma ou outra coisa no lugar, como quem não quer nada. A tia sentou, finalmente, na cama e, muda, observou Márcia: vestida apenas com a calcinha minúscula e a blusa branca (de decote tão profundo quanto a vulgaridade necessita). Observa Márcia curvada em direção ao espelho, os cabelos escuros são uma cortina que desce pelas costas. Márcia é uma calcinha minúscula e olhos escurecidos pela maquiagem.

A tia observa, e sua boca fica entortada (os olhos anuviados e desgostosos) com silêncios de reprovação. Com o rosto voltado para o lado, como se tivesse medo de encarar Márcia, a tia diz baixo e devagar (a voz fraca):

— Você está vulgar.

Márcia não se dá ao trabalho de virar-se pra tia. A boca fortemente pintada sorri através do espelho. Ela avisa de volta (cínica):

— Você não é minha mãe.

Márcia se volta pra tia enquanto escova o cabelo e acrescenta:

— Irmã da mãe; e não mãe. – fingi amenizar as palavras sublinhando-as com os olhos enviesados e riso na voz. Dá as costas à tia; alarga o sorriso e torna a passar o rímel nos cílios.

A boca velha da tia entorta-se ainda mais. A tia sai do quarto, quieta, sempre engolindo, sozinha, brigas de tempestades. Márcia liga para amiga, combina horários e locais enquanto escolhe a sandália: gargalha comentários, riem do chefe, aumenta o volume da música para a amiga ouvir. É gostosa, sabe.

Desliga o celular, veste calça jeans justíssima. Aumenta música: frente ao espelho testa um sorriso trocista, testa um olhar sexy, um rosto sério, um franzir engraçadinho do nariz e confere sua gostosura: observa o movimento dos seios e dos quadris ao descer, dançando, até o chão.

Márcia tenta sair despercebida. A tia, da cozinha, chama-a para que tome a dose noturna dos remédios. Márcia pára à porta do aposento: a tia, mulher insossa, lava a louça; e o tio, homem trabalhador, janta a comida carinhosa da esposa, merecida após um dia árduo de labor. Mesmo que o rímel o baton o blush a base a sombra estejam intactos, Márcia sente a maquiagem escorrer devagar e espessa de inflexão. Mesmo que intacta, sente a maquiagem escorrer quando, ao observar essa sua família, tenta se lembrar se fora ela (aos quatro anos de idade) ou os tios (quando abriram os braços e a casa) que estipularam que nunca os chamaria de pai e mãe. Dose de amargura.

A tia, um horror de solicitude e carinho, já havia preparado o copo d’água com os comprimidos dispostos ao lado. Márcia senta ao lado do tio, que está a jantar, e toma seus remédios – amargos, amargos. Ela e o tio conversam animadamente sobre a noitada que Márcia terá. A tia avisa baixinho, voz de sempre quase medo: você está vulgar. Márcia (exasperada com a velha) diz que está na moda, diz sorrindo que  atia não sabe o que está na moda. O tio ri e, virando-se para a sobrinha, avisa-a: você está bonita, não ligue para a tia.

Tio coloca uma mão na coxa de Márcia, do lado interno da coxa. A mão sobe, lenta, sôfrega, em direção ao sexo e desce: uma, três vezes.

Márcia sorri para a tia. Sorriso salgado de vontade de chorar, porém duro e cínico – feito metal entrando na carne. Márcia tem vontade de sussurrar com troça: vê isso, sua velha? Vê? A tia, feita de medos e carinhos, desvia o rosto – engolindo tempestades.

Márcia levanta-se, com pressa. Márcia sai da cozinha, barulho da sandália ressoando pelo silêncio que era o assoalho. Márcia sente nojo dos seus seios altos, da calça que desvela sua bunda, dos saltos finos e brancos da sandália. Tem vontade de vomitar os remédios que entopem seu estômago.

* * *

Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe – alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.

No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.

__ Preta suja!

Ana Paula era bem maior que Maria. Ana Paula tinha oito anos, Maria tinha quatro. Maria arfava, lágrimas silentes correndo pelo rosto – tinha medo de escuro, mas Ana Paula não podia perceber, se não a deixaria presa a tarde toda.

__ Saí daí, preta suja! – Ana Paula gritou em direção ao guarda-roupa, enquanto puxava os bonitos cachos louros de sua boneca francesa – de porcelana.

O coração de Maria parou por um segundo. Esperou a outra menina gritar mais uma vez, pra ter certeza.

__ Saí! Sua pretinha fedorenta! Vai embora! Pret… -  a palavra morreu pelo susto: Maria empurrou, de supetão, as portas do guarda-roupa e correu afora, sem olhar para os lados.

Ana Paula olhou para as bonecas em suas mãos – os vestidinhos rosas da cor das cortinas de seu quarto. Encrespou ligeiramente o rosto, as pálpebras descidas sobre os olhos pretos.

Lançou, com raiva, as bonecas para longe. Levantou em um pulo e saiu, também, correndo do quarto. Maria corria, mas Ana Paula alcançou Maria no meio da sala. Envolveu a pequena mão marrom na sua e puxou Maria para o lado contrário:

__ Vem. Vamos brincar.

__ Não. Não quero.

Ana Paula, feroz:

__ Preta suja! Vem brincar!!

__ Não quero! – Maria gritou alto ao tempo que se desvencilhava e corria pra cozinha, atrás da mãe.

Por um momento, Ana Paula ficou ali, no meio da sala, enrubescendo lentamente. Os braços pendidos molemente ao longo do corpo; lábios entreabertos, olhos enganadoramente mortiços (um pouco úmidos) a mirar o corredor por onde Maria sumira. O vestido amarelo, cheio de laços e babados, fazendo-a um pouco ridícula (na medida em que contrastava com um amargor pouco infantil no rosto).

__ Preta suja! Suja!!! – gritou com força; veias saltando pelo pescoço.

Ainda vermelha subiu, desesperada, as escadas, batendo os pés com força nos degraus de madeira; correndo para o outro quarto cor-de-rosa, onde dormia o bebê feio, enrugado. Estacou na porta: o bebê feio sugava o peito de sua mãe. Ana Paula montou uma cara de choro.

__ Mãaaaeee. A Maria  não quer brincar comigo – a voz melosa e irritante.

Sua mãe não levantou os olhos, não fez aquela expressão imitando pesar e não estendeu os braços, chamando Ana Paula para o colo. Não fez voz de criança, não trocou – propositadamente – o ‘r’ pelo ‘l’ ao falar (“vem aqui, amolzinho…”). Não a consolou, não alisou seus cachos, não propôs brincarem de casinha, não ofereceu um bombom. Não chamou Maria de pretinha feia, não brincou de pocotó, não apertou Ana Paula com força, não sorriu, não…

__ Não vê que sua irmã ‘tá mamando, Ana Paula. Vai brincar com suas bonecas. – voz da mãe irritada.

* * *

Fitava suas bonecas, no momento, já sem braços. Ana Paula nem precisava descer pra espiar. Já sabia que o irmão da Maria deveria estar na frente de uma panela, ajudando a fazer o almoço. Cozinha abafada, com cheiro gostoso de tempero e a Mãe de Maria – suja de tomate, cheirando a alho – a ninar Maria chorona. Mãe de Maria com baita sorrizão branco, dizendo que ia dar outro pito na patroazinha, pra’quela meninona parar de judiar dos outros. E com sorrizão, devia estar, de novo, enchendo o rosto da Maria chorona com beijos, dizendo que não necessitava chorar.

Ana Paula já nem precisava descer pra espiar. A cena já gravada na mente por força da repetição.

Pegou uma boneca pelo cabelo louro e quebrou-lhe a perna. Maria. Aquela menina chorona. Ia puxar o pixaim dela até ter tufos soltos na mão – aquela chorona. Corria, sempre, chorando pra mamãe preta dela. Pretinha suja. Ana Paula era patroazinha, não precisava da pretinha suja, não é? A mãe já dissera antes, não precisava. Ia pegar a pretinha. Ia, sim.

E então, à tarde, encurralou Maria num canto do estábulo e bateu-lhe com uma vara. Bateu sem parar. Bateu, violenta, até seus cahos castanhos e sedosos desmancharem, até seu braço doer. Bateu até os vergões sangrarem pelas pernas da pretinha. E então pegou-a pelo braço, arrastou por sobre o chão de terra batida e trancou aquela Maria suja numa baia, ao canto.

E então, súbito, o mundo parou. Ana Paula com respiração ainda acelerada, parada em frente a baia e o mundo parado ao se redor. Lentamente empalidecia, os lábios perdiam a cor, arfava. E, de repente, a vara em sua mão pareceu-lhe suja, quente – jogou-a para o lado.

Ana Paula e o mundo parado, desprovido de sentido, desprovido de ação. O mundo marrom-madeira rodeando-a, cheirando a cocô de cavalo, um pateado nervoso em algum lugar. E, deu-se conta, mundo parado com  Maria chorando compulsivamente do outro lado da portinhola de madeira – muralha intransponível.

Ana Paula franziu a testa –  que fazer agora?

Olhos pretos de Ana Paula já marejados. Maria, preta suja, asquerosa – não devia chorar. Se perguntava, ferozmente, porquê Maria chorava. Era suja, não era? Não devia chorar, não devia!! Preta suja. Ana Paula gritou.

__Preta suja! – Maria chorou mais alto.

__ Não chora! Não chora! – gritava, já chorando também.

__ Não chora! Não chora! Não chora, preta suja! Preta! – gritava, tensa, nas pontas dos pés, os punhos cerrados, brava, irada, por que Maria não parava de chorar? Por quê?

__ Não chora!

Ana Paula murchou. Saiu correndo, desesperada, louca, para cozinha – com o coração na mão (inchado, sangrando). Ia pedir pra Mãe de Maria fazer Maria parar de chorar; pedir pra tirar Maria de lá, pois Maria tinha medo de escuro. Ia pedir, desesperada, pra Mãe de Maria pegar Maria no colo, sentar com ela sob o sol e beijar as pernas roliças de Maria até estas pararem de sangrar. Ia pedir pra Mãe de Maria fazer carinho na Maria e ia pedir pra Mãe de Maria bater na patroazinha até ela sangrar igual Maria, igualzinho Maria.

Parou em frente à Mãe de Maria, com seu coração amorfo sangrando em suas mãos. Arfava, chorava, soluçava, atropelando palavras sem, no entanto, conseguir falar.

E então: surpresa das surpresas. Mãe de Maria ainda suja de tomate, com mão cheirando a alho e o cabelo trançado comprido, comprido, sentou-se na cadeira e abriu baita sorrizão. Puxou Ana Paula para o colo e abraçou-a e disse coisas gostosas, coisas de mãe, que Ana Paula não – e jamais – compreendeu, só sentiu. Sentiu um conchego no avental amarfanhado e úmido jamais sentido no vestido de cetim azul da mãe. A aspereza da mão negra a limpar, com delicadeza infinita, as lágrimas de Ana Paula. E ria seu sorrizão branco e ninava Ana Paula e dizia coisas gostosas que a menina jamais, jamais entendeu. E – gostosura das gostosuras – Mãe de Maria beijou Ana Paula, beijou assim, gostoso e estalado; beijou bochecha branca  salgada igual beijava Maria.

E então, Ana Paula apertou Mãe de Maria com força; já pensando em virar Maria chorona, pra ganhar beijo todo dia, todo dia.

Fernanda Cristina
29/05/2004

Dobradas

quero teu homem
porque ele joga futebol com os amigos à
tarde
tarde, querida
quero teu homem
porque ele se debate na impossibilidade.
de teorias filosóficas tardias
amiga

depois de tarde de amigos,
todo filosofia, querida
ele senta suado
sobre as fronhas que acabei.
de dobrar mimosamente
exatamente
como você me pediu

esbravejo, amiga, com ele
maculou suas fronhas exatamente
dobradas

ele gargalha, querida
ele xinga-me:
fresca

quero teu homem
de futebol de tardes
de filosofias tardias
impossíveis
gargalhamos, querida
reclamo das fronhas
[chama-me fresca]
exatamente, mimosamente
dobradas.
como você me pediu

chama-me de fresca

soberba e perfídia, amiga
corroem os dele e os meus.
risos
pois ambos sabemos, querida:
a fresca é você

amiga, esfrego me
dissimuladamente
nele

e ele sabe
amiga querida
fresca minha
ele sabe.

azar o seu

(jan. 2007)

Res:

Gatan,

eu ando fugindo dos meus sonhos. só coisas sanguinolentas (horríveis) ou tristes.

Mas ontem sonhei que fazia várias coisas pelo cotidiano e que ele estava comigo mas que ao mesmo tempo ele não estava. Eu olhava envolta e ele não estava, mas eu sabia que ele estava, entende?

E, diferentemente de outros dias em que acordo e lembro que me afastei dele e fico desesperadamente quebrada, em pedaços, numa tristeza grande e burra, dessa vez, com este sonho, eu acordei calma.

E olha que não sou dada a fantasionismos e interpretações místicas ou freudianas de sonhos. Mas não consegui deixar de fazer a relação entre a calma do acordar e o sonho estranho.

Enquanto isso, você sonhando que eu casava com ele. As coisas andam fora do eixo por aqui envolta, não?

riso

:(

bejo

Noite. O estacionamento muito escuro. Parou o carro e olhou-se pelo retrovisor. Ela esqueceu de pentear o cabelo. Mas não fazia tanta diferença. O cabelo liso e pesado, bagunçado desse jeito, ia parecer só charme – ponderou. E olhando os próprios olhos orientais (irritados e sem maquiagem) murmurou: charme de merda.

Seria justo tirar da boca aquele batom roxo (seu preferido), que passara às pressas. Mas desistiu da ideia.

Subitamente, se apressou: jogou os óculos e as chaves de casa de qualquer jeito dentro da bolsa e saiu com rapidez do carro. Charme de merda.

Entrou no bar.

* * *

Estavam em nove no bar. Ela sorriu da piada que o Alexandre contou, mas virou delicadamente o rosto. Ao menos sorria.

Por todo o tempo, escorregava casualmente os dedos pelo copo. E sorria, sempre suave.

Estavam em nove pessoas, não conseguiram mesa. Estavam amontoados ali, junto ao balcão. Ela, sentada na banqueta (sempre sorrindo, simpática e delicada) tinha uma visão privilegiada de Marta, no meio da roda de amigos.

Marta insegura, tapada e mal resolvida. Marta que se pensava mulher interessante, só porque se fazia sexualmente liberal. A bartender era a Leila. Leila, A Estranha (cochichou maldosamente pra Roberta). Normalmente, tinha dó de Marta. Mas, nesse dia, sentada junto ao balcão, afundada na meia-escuridão, Marta parecia lhe reluzir. (esfuziante em sua vulgaridade de mulher moderna). Marta ao rir e conversar com todos e alisar constantemente o cabelo (charme de merda) reluzia de idiotice e falta de noção.

Passou com urgência a mão no próprio cabelo bagunçado; ainda desejosa de arrancar o batom. Sorria suave pra esconder seus bufos de impaciência. E desviava o rosto. Leila, sobrinha da prima de segundo grau do tio da cunhada do Edvaldo. Magrela e feia de doer: Leila, sempre sorrindo, atenciosa.

Queria tirar o batom. Escorregando os dedos lentamente pelo copo, ponderou que se ficasse bêbada acabaria dando pro sujo do Alexandre. E se ficasse bêbada acabaria (totalmente absurda e etílica e cambaleante) levando Marta para algum canto.

Se ficasse bêbada, tinha certeza: acabaria com a fala engrolada, tentando explicar calmamente à Marta Que Porra Marta pára de oferecer essa bunda pra todo mundo. Pára Marta! Você ‘tá fazendo a droga toda errada. Não vê, Marta? Não vê? Caralho Marta, você não vê? Nenhum deles (os que te comeram ou não) te respeitam. Eles nem fingem, Marta, nem fingem que te dão a porra d’uma atenção. Pára de oferecer essa bunda feia pra todo mundo! Mas que caralho, Marta! Não vê? (a voz engrolada, os olhos dançando de bêbada). Você, pra eles, não é uma liberal, é só uma vagabunda fácil e suja com diploma de economista. Marta, eles são uns machistas tapados e sujos. Marta? (com voz de bêbada triste diria) Marta? Vai tomar no cu, Marta! Não vê?! Não vê?! (chacoalhando Marta pelo braço; Marta chorando; ela mesma chorando, bêbada, derrubando a vodka do copo na roupa; Alexandre mandando-a soltar Marta; Alexandre querendo levá-la embora pra comê-la, ela também como Marta: vagabunda, fácil e suja).

Ela sorri da terceira piada que Luciano conta. Pondera internamente que não deve ficar bêbada. Ao mesmo tempo, escuta (perfeitamente atenciosa) Sandra contar sobre a gravidez da Luana. Sorri suavemente nas partes bonitas ou engraçadas da história: sempre simpática em sua perfeita delicadeza oriental. O cabelo bagunçado e os olhos descuidadamente (mas eternamente) pousados no próprio copo. Se ficasse bêbada, pensa consigo mesma, seria um desastre. Seus dedos descem e sobem pelo copo: lentos de reflexão.

Nunca fora amiga da Marta. Às vezes, passava horas escutando as lamúrias dela, via-a apenas uma ou três vezes a cada dois meses. Alardeava a dó que tinha da Marta (a vaca insegura) para quem quisesse ouvir.

Pega o guardanapo e, discretamente, tira o batom da boca. Fora besteira ir ali. Não suporta o próprio batom. Não tem força pra um sorriso genuíno. E Marta, inocente, reluzia feito seu novo objeto de ódio na meia-escuridão.

Adriano começa uma piada de japonês, percebe a gafe e faz um cumprimento oriental para ela, à guisa de desculpa. Todos riem; ela ri, faz sinal de que tudo bem, que ele podia continuar a piada. Sandra pára a história da gravidez da Luana pra ouvir a piada de Adriano. Ela sorri enquanto desvia suavemente o rosto. A Marta ri pra uns caras, ri, se jogando, se oferecendo. E observando Marta, ela fica brava ao ter a certeza de que acabará bêbada, gritando com Marta, dando pro Alexandre. Os olhos ardem com a força de segurar um choro ridículo. Ela bebe um gole e sorri para ninguém.

Leila, A Feia, prepara alguma bebida estranha. Leila percebe o olhar dela e oferece a bebida dizendo:

— Essa é grátis.

Ela sorri, pega o copo.

— É feito do quê?

— Prova primeiro.

Mentalmente ela xinga Leila e ri (não queria a porra da droga de bebida nenhuma). Toma a tal da bebida. Engasga, tosse, cospe. Põe raiva na voz ao reclamar:

— É amargo. – Leila sempre-feia-simpática responde calmamente:

— Feito teu tempo.

 

(dez. 2010)

Esquina

Encontraram-se n’alguma calçada.

— E esse desalento que você traz no peito?

— Gostou? Comprei ali, na esquina de casa. E é como jóia rara: arde e brilha feito uma tristeza azul.

Fora amaldiçoada pela própria mãe. Por outro lado, há alguns anos atrás se tornara princesa. Fora amaldiçoada: dias de sol, daqueles com gosto de sábado. A mãe rogara a praga na infância: ela só poderia existir em dias com sol. Gosto do ar com sol que envolve e volteia sobre a pele, que faz volver os olhos para copas de árvores, que faz volver os olhos pra topos de prédios brancos-salmões-antenas-azuis-parabólicas-raios-claros, os olhos: sol e vento. E sorrir; quando sol com vento, sorrir, calma, plácida. Quando ela mais feliz: sol e vento.

Daí que ela, amaldiçoada pela mãe, necessitava de sol pra existir.

Mas um dia se tornara princesa. Um dia, de repente, eu me tornara princesa. Futura rainha de um povo sem olhos, órbitas vazias nas faces, burros. Coroa delicada e brilhante, vestido rosa: pesado de ornamentos, rendas, rutilante de fios de ouro. Pesado, rosa e douro.

Princesa, às vezes eu tinha quedas de maldade: despotismos, instantes de grosserias, ordens de morte, malevoaledades com entes queridos. Mal sabia.

Um dia, sendo princesa (com o pesado vestido renda rosa douro) a bruxa que havia dentro dela (arquiinimiga perdescondida por entre minhas próprias entranhas) surgira. E a bruxa trancou-a no alto da torre (na casa da esquina, do lado bar do Maneco). Os aposentos eram labirínticos; poucos tinham janela. As janelas: pequenos buracos arredondados, a metros de altura. Nas primeiras semanas ela gritara desesperadamente; desvairando-se em tentativas pra fugir dali. Depois, resignou-se. A torre era sombria e, como precisava de sol pra ser feliz, corria risco de morte.

À noite, ela dormia junto à janela leste. À espera. A cada momento sem sol o aumento exponencial da agonia.

A torre: salas pútridas, corredores tortuosos e ela arrastando meu pesado vestido pelo chão grosso de bolor. Um dia eu já não tinha forças para, a cada hora, me arrastar por entre corredores tortuosos. Até que uma vez, caída no chão, ela não teve forças pra procurar a sala; aquela da janela do sol das 11 horas.

E, ao meio-dia, o sol estava a pino (estourando), sobre o alto da torre: todas as janelas eram apenas portais luscos-fuscos de agonia. Perdida dentro do labirinto, ao meio-dia. Numa sombridão que vinha de dentro de si, densificando tudo à sua volta. Ali, entre as paredes, começou as primeiras contorções, a boca escancarada ridiculamente, desesperada, o pescoço tenso, o tronco estribuchando. Melhor seria se os olhos dela rodassem pelas órbitas, afundando-a em tonturas; mas os olhos persistiam em ficar atentos, vidrados no verde-bolorento-roxo das pedras da torre. Sol nenhum. Os primeiros momentos em morimbunda.

Súbito, surgiu o príncipe. Trazia na mão uma flor de sol. Poderia salvá-la.

Flor de pétalas grandes, fluídas ao se movimentarem ao vento (mesmo ali, sem vento nenhum). Flor densa feito chumbo, preta como qual todas as cores engole. Flor perfeita de sol: nojenta e fluída. Perfeita em todas as texturas. Cheiro de tecido de algodão secado ao sol. Balançava ao sabor de vento nenhum.

— Dá-me. – ela exigiu a flor.

O amor entre eles sempre fora estranho. Como não soubessem o que fazer com esse amor, fingiam não se gostar e se divertiam com folguedos de contrariar um ao outro.

— Dá-me. – o vestido rosa, pesado e imundo. A garganta tensa de agonia.

— Dá-me! – ela gritava.

Ele riu e, achando graça em contrariar-lhe, comeu toda a flor, lentamente. E a bruxa que vivia dentro dela morreu. E foi assim que ela se tornou uma princesa absoluta, arrogante, má, sem limites.

Daqui uma semana

[nunca acabado]

Daqui a uma semana, espero estar no meio da sala escura; abaixado, com os joelhos fincados no chão, no meio da sala escura. Espero que, daqui a uma semana, eu esteja com os joelhos sobre o chão, com os olhos bem abertos e brilhantes, delicadamente atentos, fitando o nada enquanto eu esteja puxando com a boca, a manga da camisa. Alienado.

Daqui a uma semana, espero não ser eu.

Havendo uma tristeza armada em mim. Ela veste uma armadura, empunha espada e escudo, pronta a lutar contra qualquer coisa que deseje meu sorriso.

Arrumo meu prato de almoço, retiro a cadeira da mesa em que sentará a família para almoçar. Coloco a cadeira do lado de fora da casa, sob o sol. Minha mãe perguntando enquanto concentrada em temperar a salada:

­_ Tá com frio, filha?

Respondo rápido (com a mesma certeza que a palavra amém carrega). Eu respondendo com voz clara e firme e séria… respondendo.

E, quero dizer, minha mãe perguntando:

_ Tá com frio, filha?

Eu respondendo:

_ Sempre.

Antiga

Dedicatória

Tão importante quanto o chão sobre o qual me firmo. Tão importante quanto o céu que vela meu mundo e que quando azul e fulgurante me põe sorrisos no rosto, e me dá expectativas de bonito futuro (nem que o futuro seja um dia). Dedico esta monografia à minha família, chão e céu de minha vida: Luiz Fernando, Neide, Luiz Tiago (e em memória de Maria Aparecida e Maria do Carmo).

[primeira versão]

____________________________________________________________________________

 

Andressa, de segunda a sexta, veste suas calças jeans, o uniforme pacato e branco. Adolescente, trabalha na universidade como patrulheira. Todos os dias Andressa passa bastante gel e creme no cabelo encaracolado e muito comprido e prende-o em alguma fita colorida. Pacata. Todos os dias veste o tênis e carrega a bolsa brilhante: bolsa rosa, foco de incongruência com o tênis preto, com o uniforme branco pacato. Todos os dias passa com afinco o creme e o gel no cabelo, tenta abaixá-lo; mas passa mal, e tufos secos escapam das mechas lambuzadas de creme. Todos os dias Andressa encontra as amiguinhas e o moços pela universidade. Andressa percorre a universidade de ônibus durante toda a tarde, levando documentos de departamento a departamento. Pacata.

Mas, as outras duas percorrem a universidade também; e eu as vi. Eu as vi. Eu posso afirmar com orgulho que as vi. Uma é preta, sempre de bonitos vestidos e cabelo sarará; a outra é branca, de cabelo sarará laranja e bunda de preta. Eu estava (pacata) no laboratório de informática com outras moças: quietas, pequenas e brancas no pacato de suas estéticas. E as duas chegaram: fortes, carnes e cabelos de belezas demoníacas.

Elas encheram a sala. Eram apenas duas, mas encheram a sala. Sentadas, lado a lado, frente a um laptop, murmuravam baixinho e, súbito, estrondavam em gargalhadas. Lado a lado, os ombros encostados um n’outro, os cabelos encaracolados, na altura dos ombros, mas apontando em todas as direções. Encheram a sala. Riam e seus cabelos, arroubos de força, sacudiam. Crespos e demoníacos, indecentes de tão expressivos. As gargalhadas reverberavam pela sala, os corpos sacudiam de riso e o som das risadas repercutiam pelos diafragmas das pequenas moças brancas, apagadas em sua estética, dentro da sala.

Eu as vi. Vi as duas, somente as duas, encher uma sala. Vi as moças pequenas se remexendo discretamente, incomodadas nas cadeiras, atraídas e bobas pelas duas. Vi essas moças brancas olhando-as de canto de olho; cada olhar intimidado e escuso das moças branquelas e magras era uma reverência muda. Um baixar de cabeça em sinal de respeito. Os cabelos das duas estalando de força. Atestando o gosto que elas têm pela força. Suas risadas. Suas risadas. Havia gostosura em suas risadas. Eu as vi. Digo-lhes, eu as vi. Murmurando, dentro do laboratório de informática, unidas em súbitos de riso. Demoníacas em beleza. Vi o homem passar e tentar segurar na expressão facial a vontade de tê-las, a compulsão fugaz e urgente do querer cercá-las, a vontade de beber delas. Eu as vi. Os cabelos crespos apontando em todas as direções. O esnobismo inconsciente delas.

Andressa todos os dias veste as calças jeans e vai trabalhar na universidade. Andressa também as viu. Andressa, sentada no ponto de ônibus, também as viu. Elas passaram por Andressa. Andressa Todos os dias Todos os dias Todos os dias Todos Passa o Creme e o Gel. Todos os dias Andressa passa creme e gel nos cabelos, passa com força e afinco. Mas passa errado: tufos secos escapam do laço, resistem à tentativa de abaixá-los. Veste o uniforme branco e carrega a bolsa incongruente e brilhante. Andressa as viu passar, acompanhou-as com o olhar desatento, mas acompanhou-as na descida pela rua. O rutilante das cabeleiras encaracoladas, desbaratadas de força e beleza. As risadas. Eu as vi. Andressa é tão tosca que não compreende que o que ela própria queria era ser como elas.

 

agradecimento às duas: Dani e Gabee

Vertigens

Não, queridos.

Não sou daquelas pessoas especialistas em música, cientes  da obra-prima, da junção perfeita de sons em direção à melhor expressividade. Eu sou, no mais das vezes, superficial. Escuto músicas feito o cãozinho que corre atrás da bola colorida que vocês jogaram no quintal: ele vai atrás da bola (e que pensamento, que emoção, que instinto é esse de trazê-la, loucamente, de volta?); a música toca e meu corpo é impulsionado (e que pensamento, que emoção, que instinto é esse que faz o corpo, loucamente, querer acompanhar a evolução da música?). Sou como o cão correndo atrás da bola colorida: há um prazer em dançar que foge à explicação.

Entretanto, queridos, às vezes sinto-me vazia. E é nesses dias que a música não leva meu corpo a dançar. Ela põe lágrimas nos olhos e isso pouco sei explicar. Porque vazia, cada ondulação da música me lança em descidas e subidas (vertigens). E me vem a ciência da obra prima: o acordo perfeito entre sons, em direção à expressividade. Essa, que é a concretização do desaprumo do meu âmago.  Mas, ainda sim, continuo o cãozinho que corre atrás da bola que vocês jogaram. Mas, queridos, é um cãozinho mais triste.

(e essa música me leva embora, particularmente)

Lonely

(por Yaël Naim)

You are not alone
I am here with you
Even when you’re scared
I’ll never leave you
Standing in a storm

Making it insane
Once again, I would try
To enchain you
But you open your eyes to the sky
and whisper

[Refrain:]
That you are so lonenly
You are so alone
You’re so alone
You’re so lonely, so lonely
So I’m colouring my face
While I am here with you
Imagining the landscape of your sorrow
Is it yellow or blue?

Colouring the sky, and the threes
and the clouds, and the moonlight
I’d coloured your heart
If you didn’t I did

(Refrain)

And I wish you could just find home.


									

Mar de Adeus

(ouvindo Haja o que Houver, de Madredeus)

E então um dia ele dissera: não vou sair da sua vida, mas já era tardia a sentença, tardia. Dissera a Ela: não vou sair.

Pois fora então que ele se postou na vida dEla como quem finca os pés na areia grossa, dentro da praia. Às suas costas (e ao infinito, o mar). Ficar na vida dEla: como tentar se manter equilibrado dentro de mar brabo.

Os pés fincados na areia grossa e as ondas violentas feito martelos em suas costas, instando-o a frente, tentando tirá-lo do lugar. Mas ele prometera a Ela: não vou sair da sua vida.

(saberia Ela quanto de plenitude de existência perdia em não estar com ele?)

Prometera pois ele sabe, ele está cônscio: a vida é uma só, cada minuto é o passo pra frente, pra morte. A vida não volta, é apenas uma, uma. É preciso entender, apreender a força (destino) destas palavras: a vida é uma, a porra da vida é uma. A morte virá e não ter ficado com Ela, junto à Ela é uma besteira existencial. Da porra da vida só vale a passagem, os momentos: desperdiçar a merda do tempo que não volta em momentos em que Ela não estivesse era uma burrice. Besteira de conseqüências existenciais: deixar passar a única chance de ser, de estar vivo (uma vida, só a porra de uma vida) sem estar com aquEla que gosta (e que, talvez num desespero, ame). Ela não tinha consciência: a porra da vida é uma, só uma chance. Não ficarem juntos é besteira equiparada à deixar de ter um punhado (doce e riso e dolorido) de felicidade. Prometera: vou ficar na sua vida. Mas se manter na vida dEla era como se postar dentro do mar.

As ondas com forças de deuses, tentando tirá-lo do lugar e Ela lá, na areia da praia. Ela conversando animadamente com três, quatro ou sete pessoas e ele sofrendo a ira dos deuses. As costas ardendo da força d’água combinada com o sal. Chorar era idiotice, não havia diferença nenhuma entre lágrimas e mar.

Mar que lhe esmurrava a cara, o alquebrava, partia ao meio.

Às vezes, Ela acenava alegre de lá da praia, acenava pra ele. Ela ama-o, ele sabe.

Um dia ponderou em, simplesmente, dobrar os joelhos e deixar aquela dor toda em forma de água (em forma d’ondas destruidoras) lhe levar. Se tornar um afogado, inchar e boiar, a deriva, oceano afora. O que doía não era estar esperando-a, firme, dentro do mar e ela estar lá, em rodas de amigos, rindo com as outras pessoas.

O que doía era não ser um daqueles amigos, na areia, rindo junto com Ela. Isso era o que doía. Dobrar os joelhos, o primeiro acorde de uma balada de adeus. Ela acenava alegremente pra ele.

amargo.

Chegou no bar e pediu uma dose do próprio tempo.
E era amargo.

Eles se separam há dois ou três anos atrás, não me lembro muito bem. Separam-se em meio a rancores e a ditos (de um para o outro) que rasgaram como navalha – foram brigas feias, violentas. Os ditos ainda doem, mesmo quando, involuntariamente, se lembram deles. Ainda hoje, falam muito mal um do outro.

Um dia, quando ainda casados, ele estava irritado. Lavava o carro do lado de fora da garagem, esfregando com força e irritação o capo; a mangueira esquecida aos seus pés, esguichando água pelo chão. Se o maldito Pereira, do trabalho, lhe aparecesse naquele momento, esmurraria-o.

Ela, cansada do programa da TV, saíra para a garagem e encostara as costas no carro molhado. Ela sorria, sabia-o irritado.

- Saí daí Paula. Não ‘tá vendo que ‘tô lavando o carro? – falou sem dirigir o olhar à esposa. Muito irritado. Ela não se mexeu, não desfez o sorriso.

- Saí daí, droga. ‘Tá atrapalhando. – ela continuou sorrindo. Virou-se ostensivamente para ele, colocou o cotovelo sobre o teto do carro, apoiou o queixo na mão. Bonita ela, tinha o cabelo muito comprido naquela época.

- Por que ‘cê ‘tá lavando o carro de novo? – ela perguntou, os olhos divertidos, brilhantes. Ele não se dignou a responder, esfregou com mais força o capo do carro.

- Por que não desliga a mangueira? ‘Tá gastando água. – Ele ignorou-a, sabendo que ela pretendia provocá-lo.

- Por que a gente não corta essa árvore da frente? – ele jogou a esponja com irritação no chão, pegou a mangueira e começou a jogar água sobre o capo. Sua boca cerrada em uma linha fina de exacerbação. Ela ria, divertida com o silêncio tenso do marido.

- Por que a gente não foge daqui? Por que não plantamos uma roseira enorme? Por que não vamos pular de pára-quedas? Por que a gente não rapta o presidente e ficamos ricos? – ele revirou os olhos, bufou de impaciência.

- Paula… – falou baixo, em tom de ameaça, de pedido.

- Por que o céu é azul? – ela ria, sem desistir. Ele murmurou, quase ininteligivelmente, um “doida”.

- Por que o céu fica laranja e cor-de-rosa quando o sol se põe?

Ainda jogando água no carro, sem olhar para ela, respondeu sério, fisionomia carregada:

- É pra te fazer sorrir, Paula. Por isso que o céu fica assim.

Ela se surpreendeu, o queixo caiu. Paula pôs-se imediatamente a gargalhar.

Ele, ainda sem olhá-la, jogando água nos pneus, ria também (um tanto encabulado). Paulo sentia um amor horroroso pela esposa. Um amor grande, grande.

e muitos não se conformavam: por que mesmo não sendo religiosa, eu insistia no uso da palavra amém?

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A hora da morte veio antes, dois meses antes da internação dela. A hora que durou meses. Antes de levarem-na ao hospital, semanas antes d’ela piorar, fui ao quarto beijá-la e desejar bom dia para aquele corpo subitamente pequeno. E minha tia-avó já não me sabia sobrinha e não sabia Fernanda, não me sabia.

Mas, deu-me um beijo em cada bochecha e, como nunca fizera antes, tomou meu rosto em suas mãos e beijou minha testa. Me deu um terceiro beijo na testa. Segurando meu rosto entre suas mãos, com os olhos firmes e a voz dura, como se me desse uma bronca, avisou: “este ultimo beijo não fui eu quem dei, foi Jesus Menino, é o beijo de Jesus Menino”. E talvez porque fosse a hora (deturpada) da morte: por um segundo, fui tão católica quanto ela em toda sua vida (fui o máximo, fui a mais devotada católica, um cúmulo asfixiante de católica em/por um segundo).  A sensação de confiança plena durante uma vida inteira em uma justiça (deturpada) cristã me povoando e dilacerando.

Uma hora em meses.  Uma vida em um segundo. Frente à morte: o tempo dobrado à intuição do instante*.

E já estava morta, Jesus Menino em minha tia pequena e morta. Mesmo, ali, falando diante de mim: morta. Ninguém conseguiu me acalmar.

Nada conforta a dor de morte. Digo amém como quem diz que esta é a única verdade que me resta (o limite possível de conhecimento e força humana). Dizer amém não é só conformismo,  é estar cônscia do limite humano, e por isso (sim, eu admito) é também renúncia.

Eu  e minha vó, explicando o mundo.

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Minha avó, já velha, a esquecer de tudo e todos, nada sabe sobre a lendas das origens, que colore os bosques africanos. Entretanto, desfiou (para mim, só para mim), dia-a-dia, a origem do mundo – embora não se recorde que possui netos e bisnetos, não se recorde da morte prematura de sua mãe, embora eu tenha que lembrá-la porque ela me ama (todos os dias).
Um anunciador, de mundos e loucuras, apresentou-me à lenda das origens da Terra. No entanto, é minha vó quem desvela, involuntariamente, do alto de sua velhice (com a vida sempre quase esquecida) a origem do mundo, dentro da Terra. Conto-lhes.
A lenda das origens conta que Nzamé, Deus Supremo (que é um, mas, ao mesmo tempo três: Nzamé, Mebere e Nkwa) fez a Terra: perfeição de plantas, cores, terras, animais, águas e céu azul. Entretanto, Nzamé ponderou que faltava algo, Nzamé sentia necessidade de uma ordem provinda de um chefe supremo lá, sobre o solo, e então criou o primeiro homem: Fam. Fizeram-no imortal. Nzamé deu a Fam a força, Mebere lhe concedeu o poderio e Nkwa o dotou de formosura. Mas, a constituição de Fam fora desequilibrada, minha avó me mostrou.
Em sua primeira noite, Fam estava deitado no chão de sua Terra, ainda no sono da inexistência (pois, não sabia-se Fam ou homem ou chefe supremo, não sabia-se). Embora Nzamé, Mebere e Nkwa sejam Nzamé, sejam um só, Nkwa logrou-os. Escusamente, Nkwa desceu à Terra e contemplou a formosura de Fam, enamorando-se de sua perfeição no sono da inexistência. Então, delicadamente, ajoelhou junto ao corpo do primeiro homem e o quis fruto só seu; assim, Nkwa tomou a cabeça de Fam, tombada no sono da inexistência, e carinhosamente, mas com fúria, lambeu (pressionando) os olhos de Fam até abri-los. Nkwa mordeu ritmicamente o falo de Fam até ver o membro embebido em esporro e sangue. Nkwa meteu a língua, fundo (fundo, fundo) em cada ouvido e narina de Fam. Nkwa chupou, demoradamente, com carinho e força, a língua do primeiro homem. E, sem esforço, Nkwa abriu (largamente, com ambas as mãos) o umbigo de Fam e cuspiu quantidade imensa, banhando as entranhas de Fam com sua saliva (mistura dos mais perfeitos salgos, doçuras e azedumes). Enquanto isso, Fam ficara estatelado, olhos arregalados para o céu sem horizonte, corpo abandonado nos braços de deus – convulso pelo prazer da essência da formosura, que penetrara-o.

[continua]

Amor de Moça

lenta

te beijo (te meto) doce

te calo açúcar

beijo é dois: um dentro’utro*

Talvez, aos idos dos anos 50. Ele tinha, talvez, entre 3 e 4 anos. Ele tinha, o menino. Seu pai tinha um braço torto: herança de doença de infância. O braço de seu pai: travado em ângulo de 90°, cotovelo permanentemente naquela posição e a mão mole, sem movimento. Na casa pequena, muitos filhos, todos meninos, sofá velho, e o pai se sentava no sofá e o pai apoiava a mão mole sobre a perna e o braço torto-travado ficava charmosamente disposto, assim, apoiado na perna: pose de preto-velho-malandro, charmoso.

Um dia (assim, nos idos dos anos 50) o pai fora embora (queira o mundo, o mundo), abandonara-os, sem aviso, sem prelúdios. O pai deixou pra trás o sofá velho  a mulher  a casa pequena e sentados no sofá velho: os meninos (todos eles), dispostos um ao lado do outro.

O menino (tinha 3 anos talvez), um dia (depois da partida do pai) sentara ao sofá. E como criança aprende o mundo imitando os mundos-adultos, o menino (tinha 4 anos talvez) sentara ao sofá deixando o cotovelo travado, o braço em ângulo de 90°. A mãe, quando o viu assim (sentado malandro preto charmoso menino) desvairou-se. Retirou a espada-de-são-jorge do vaso de plantas e desceu sobre o menino. Ele chorou, mas não compreendeu. Depois de se enfunar na cama velha o menino, sozinho, dolorido, chorando: teve medo.

A Reza

Unir as palmas das mãos frente ao rosto, baixar respeitosamente a cabeça.

Fechar os olhos e pedir baixinho:

- Que amanhã eu pise, com o dedão do pé, no limite da sanidade. Amém.

Fazer o sinal da cruz.

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