Redoma de Vidro

Maio 11, 2008

recolho-me ali
quando tu olho
entolho
quando tu encanto
ataranto
 
ataranteio dor e céus:
em xeque o colostro
os entulhos de vida
o batom da morte
 
canto baixo
lívida
 
pra te refazer
só pra te refazer

sobre a chuva

Maio 9, 2008

 

do céu que no chão bate

que molhando roupas faz sugestões aos desejos

vêm em suas gotas sujeiras que no ar se embatem

e até os vômitos que nas privadas se esvaem

e que na garganta, antes, manejo

 

Márcia (final)

Maio 4, 2008

Com o rosto voltado para o lado, como se tivesse medo de encarar Márcia, a tia diz baixo e devagar (a voz fraca):

- Você está vulgar.

Márcia não se dá o trabalho de virar-se pra tia. A boca fortemente pintada sorri através do espelho. Ela avisa de volta (cínica):

- Você não é minha mãe.

Márcia se volta pra tia enquanto escova o cabelo e acrescenta:

- Irmã da mãe; e não mãe. - fingi amenizar as palavras sublinhando-as com os olhos enviesados e riso na voz. Dá as costas à tia; alarga o sorriso e torna a passar o rímel nos cílios.

A boca velha da tia entorta-se ainda mais. A tia sai do quarto, quieta, sempre engolindo, sozinha, brigas de tempestades. Márcia liga para amiga, combina horários e locais enquanto escolhe a sandália: gargalha comentários, riem do chefe, aumenta o volume da música para a amiga ouvir. É gostosa, sabe.

Desliga o celular, veste calça jeans justíssima. Aumenta música: frente ao espelho testa um sorriso trocista, testa um olhar sexy, um rosto sério, um franzir engraçadinho do nariz e confere sua gostosura: observa o movimento dos seios e dos quadris ao descer, dançando, até o chão.

Márcia tenta sair despercebida. A tia, da cozinha, chama-a para que tome a dose noturna dos remédios. Márcia pára à porta do aposento: a tia, mulher insossa, lava a louça; e o tio, homem trabalhador, janta a comida carinhosa da esposa, merecida após um dia árduo de labor. Mesmo que o rímel o baton o blush a base a sombra estejam intactos, Márcia sente a maquiagem escorrer devagar e espessa de inflexão. Mesmo que intacta, sente a maquiagem escorrer quando, ao observar essa sua família, tenta se lembrar se fora ela (aos quatro anos de idade) ou os tios (quando abriram os braços e a casa) que estipularam que nunca os chamaria de pai e mãe. Dose de amargura.

A tia, um horror de solicitude e carinho, já havia preparado o copo d’água com os comprimidos dispostos ao lado. Márcia senta ao lado do tio, que está a jantar, e toma seus remédios - amargos, amargos. Ela e o tio conversam animadamente sobre a noitada que Márcia terá. A tia avisa baixinho, voz de sempre quase medo: você está vulgar. Márcia (exasperada com a velha) diz que está na moda, diz sorrindo que  a tia não sabe o que está na moda. O tio ri e, virando-se para a sobrinha, avisa-a: você está bonita, não ligue para a tia.

Tio coloca uma mão na coxa de Márcia, do lado interno da coxa. A mão sobe, lenta, sôfrega, em direção ao sexo e desce: uma, três vezes.

Márcia sorri para a tia. Sorriso salgado de vontade de chorar, porém duro e cínico - feito metal entrando na carne. Márcia tem vontade de sussurrar com troça: vê isso, sua velha? Vê? A tia, feita de medos e carinhos, desvia o rosto - engolindo tempestades.

Márcia levanta-se, com pressa. Márcia sai da cozinha, barulho da sandália ressoando pelo silêncio que era o assoalho. Márcia sente nojo dos seus seios altos, da calça que desvela sua bunda, dos saltos finos e brancos da sandália. Tem vontade de vomitar os remédios que entopem seu estômago.

* * *

Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe - alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.

No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.

Márcia (parte II)

Abril 24, 2008

Apertou os seios frente aos espelhos: é gostosa, ela sabe.

Ligou seu rádio, aumentou o volume do som e passou a perambular pelo quarto (escolhendo roupas, maquiagens, separando lingerie) enquanto dançava animadamente. Cantava alto, sabendo que incomodava todos na casa. Tomou banho rapidamente. Dançou, feliz, enquanto tomava banho. Márcia cantava a plenos pulmões.

Perfumou-se. Adornou o quadril redondo e orgulhoso com uma calcinha minúscula. Falava com a amiga ao celular, dançando ao som da música alta e, frente ao espelho, arrumou os bicos dos seios sob a blusa branca, justa. O decote tão profundo quanto os desejos que guarda dentre as pernas. Vai caçar e é gostosa, sabe.

Márcia desliga o celular ao escutar os passos arrastados da tia pelo corredor, provavelmente, tomando coragem para adentrar no quarto da sobrinha. Joga o celular rapidamente sobre a cama e começa a se maquiar, fingindo concentração.

Enquanto sensualizava o rosto (rímeis, batons, blushes) a tia entrou. A velha andou pelo quarto, silenciosa, colocando uma ou outra coisa no lugar, como quem não quer nada. A tia (finalmente) sentou na cama e, emudecida, observou Márcia: vestida apenas com a calcinha minúscula e a blusa branca (de decote tão profundo quanto a vulgaridade necessita). Observou Márcia curvada em direção ao espelho, os cabelos escuros eram uma cortina descendo pelas costas. Márcia era uma calcinha minúscula e olhos escurecidos pela maquiagem.

A tia observa, e sua boca fica entortada (os olhos anuviados e desgostosos) com silêncios de reprovação. Com o rosto voltado para o lado, como se tivesse medo de encarar Márcia, a tia diz baixo e devagar (a voz fraca):

- Você está vulgar.

 

(continua…)

Márcia (parte I)

Abril 23, 2008

Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe - alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.

No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.

* * *

Emanou descaso, a rebolar apressada, atravessando a frente da televisão e avisando-os que sairia naquela noite - sem dar-lhes tempo para discussão.

Márcia trancou-se no quarto (sorrindo largo, com a língua entre os dentes, antecipando a noitada)  e olhou-se no espelho. Caçadora noturna da urbe, sabe-se gostosa. Corre os dedos pelos cabelos lisos e cumpridos. Tem os olhos de um castanho morno, o nariz adunco. A boca larga-lânguida sorria-lhe de volta. Apertou os seios frente ao espelhos: é gostosa, ela sabe.

 

(continua…)

O Alvoroço de Helena

Abril 5, 2008

 (desprumada, repliquei)

 O Alvoroço de Helena

 

Helena está com o âmago um tanto que alvoraçado. Ela atravessa a sala silenciosamente (cuida pra fazer o mínimo de barulho); pára frente à janela, espalma as mãos nos vidros e observa o céu que anuncia tempestade. Ele está do outro lado da sala, lendo coisas seriíssimas, seriíssimas (cogita Helena).

Silêncio de túmulo.

 

Ele lê, do outro lado da sala. Seriíssimo.

 

- Noite horrenda.

Ela comenta por comentar. Quase grita: Noite horrenda! Há um alvoroço silencioso no âmago de Helena.

 

Silêncio de túmulo. Ele não levanta os olhos do livro.

 

Ela espera sem se voltar pr’ele. Espera. Eternidades depois, desatento, ele lhe responde.

- Claro, claro. Noite horrenda.

 

Helena se acalma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bege

Abril 2, 2008

Uma luz clara. Luz clara amarela trespassando a porta de vidro da sacada. São Paulo lá embaixo, onze andares lá embaixo - cidade frenética. Luz clara trespassando a porta de vidro e tocando a pele. Aquecendo os pêlos loiros da mulher calma; plácida na sua quietude - imóvel.

Estava sentada no chão, sobre as pernas dobradas, com seu  vestido de seda rosa, no seu paraíso bege e marrom e acarpetado, de quadros com cores pastéis e móveis de mogno. Tombava o rosto levemente para a esquerda, as mãos levemente unidas sobre a perna direita, escutando (pela primeira vez, em anos) o tic-tac do relógio. O céu não é azul, de chão feito de nuvens. O céu é pessoal, é grande apartamento de bom gosto, é bege. O céu é perfeitamente decorado.

Passou a mão bem cuidada pelo pescoço; tocou o pingente de ouro sobre o busto; suspirou docemente. Ao lado dela, o carrinho (amarelo, vermelho e azul) de plástico - uma rodinha estava jogada no canto, arrancada pelo menino lindo e mau. Suspirou. Gritou. Violência abrupta faiscando nos olhos arregalados. Desvairo. Tomou o brinquedo nas mãos e despedaçou-o. Descomposta, a saliva escapando da boca, o penteado desfeito - grunhia  inconscientemente. Bateu o brinquedo contra o chão. Uma. Duas. Três. Sete vezes. Xingou baixinho, sibilando. Abriu a porta de vidro com estrépito. Cogitou, rapidamente, se jogava o carrinho ou o próprio corpo sacada abaixo - onze andares.

Sentiu tontura. Jogou o carrinho. Observou com seriedade o brinquedo caindo edifício abaixo. Lembrou-se com um sorriso seco: a raiva de deus, quando caída do céu, é (para os ignorantes) dádiva divina. Que vissem.

O corpo dela oscilou, perigosamente.

(2.sem de 2004)

espelho de bolsa

Abril 2, 2008

Tia Cecília Meireles, pois que eu tinha uma estrela sobre a cabeça? Brilhava tanto que até me doía. Que beleza, luz cegante. Doía de tanto que rutilava. Um dia, Ninguém veio (é, esse mesmo) e assoprou. Sopro forte, ventania: meus cabelos quase se descolaram do crânio. Pós-vento e Pasmada, descobri que não era estrela, era uma vela. E qual, tia? Qual que eu sinto saudade da dor

Tia Cecília, pois que sei que a estrela e a vela d’alguma forma saiu de uma estrofe tua. Mas que não acho a estrofe, não acho. Fica parte da tua obra então:

Morena Pena de Amor (trechos)

1

Me chamam Morena

por ser minha cor

Mas meu nome é Pena,

Pena de Amor

6

Clara no escutar,

morena no responder

Morena pra te amar,

clara pra te perder

7

Por nascer Morena

Não tenho desgosto;

mas o amor me acena

e me vira o rosto

21

Quando uma morena chora,

Deus abre a sua janela,

e, sendo Deus, se enamora

e, sendo Deus, fica triste

de não estar mais perto dela

baton

Março 10, 2008

baton eu não passo. ou passo à vezes.
mas, ultimamente tenho me concedido algum lodo de feminilidade: todos os dias rímel, nas unhas esmaltes vermelhos. feminina, como mamãe sempre quis.

ao sol do meio-dia, no ponto de ônibus, feminilidade (estereotipada) me engolfou: choro sem (com forte) motivo. Dei adeus ao rímel (que escorreu) e no esmalte descascado das unhas, estava sendo levado mais do que o vermelho de deflagro. Sob o mais belo sol. Chorando assim, me senti fútil como deve ser as mais femininas mulheres. você sabe como mulher maquiada chora? chora sem emitir som e passa os dedos delicadamente sob os olhos, pra evitar que o rímel escorra e arruine a máscara (tentativa) de beleza. chorei assim (unhas vermelhas-descascadas tentando salvar o rímel) e odiei-me por isso.

quando o vizinho passou e comentou a quentura abrasiva do sol, sorri um sorriso de urbanidade.

próxima vez, vou chorar à noite, sozinha. Aí sim será permitido o rímel borrado, o esmalte vermelho descascado e talvez um tanto de baton (tal como uma puta em fim de carreira ou uma noiva abandonada à igreja: tragédias femininas). e aí sim: à noite não haverá nenhum vizinho pr’um quase flagrante.

agitato_noturno-de-solidao.jpgVelha. Sente-se velha. Aos 43 anos, indubitavelmente, velha. Agora, odeia esta casa, pois seu único amor em vida (sua mãe) já não a povoa. Morta há dois dias, sua mãe. E, subita e indubitavelmente, ela sente-se velha. Nesta noite, subita e indubitavelmente, é uma velha.

agitato_noturno-de-solidao.jpgDas portas de vidro (da casa que agora odeia) ela vê o mar. Cola as mãos nas portas de vidro, tem o rosto congestionado, e olha o mar. Faz o esforço de um murmúrio, se esforça para ao menos murmurar, mas a garganta recusa o som. Olhos franzidos, ela abraça-se (tão velha, velha) e tenta pronunciar (não tem a força de um murmúrio): mãe.

A boca faz o movimento, mas o som se recusa (tem a força de uma velha; os lábios empapados de lágrimas abertos em um “O” perfeito): mãe? mãe? Força de uma velha chorona: não consegue pronunciar. Velha chorona e odeia-se por isso.

agitato_noturno-de-solidao.jpgOlha o mar pela porta de vidro. Mar negro de noite. Ao alto, nuvens pumbleas correm desenfreadas pelo céu, loucas feito desgraças. A noite é dos mortos e daqueles aos quais só resta (só é possível) a vigília mórbida de um velório eterno. A boca torta borbulha o agitato_noturno-de-solidao.jpgmurmúrio: “Noite, Meu Deus” (à frente dela um abismo de choro compulsivo).

Lábios empapados de lágrimas, contorcidos de dor de quase-choro. Abraçada a si mesma, anda pela casa odiada. Evita fechar os olhos, pois, sob as pálpebras fechadas estão impressas imagens de violinistas sangrados e sem lábios, mórbidos. Nuvens pumbleas correm pelo céu, desenfreadas como as piores desgraças. Sente-se velha e não nota que, ao passar pelos vasos de pedra negra de sua bela sala, os lírios murcham e fedem – nojentos e mortos.

Ela crava as unhas na pele, quando envolve o pescoço com as próprias mãos. Violinistas de faces descarnadas, mar revolto e sua mãe não está ali. Unhas adentram a própria pele sem perdão algum, nenhum perdão, nenhum. Sua silhueta é efêmera dentro da casa escura. Lábios (contorcidos) afogados em lágrimas, rosto congestionado. “Noite, Meu Deus”. Os lírios fedendo horrendamente e ela não nota, pois tem desespero na voz de velha: “Que noite”, ela sussurra.

Fernanda Cristina
(23/02/07)

Pois, então, ele dissera: “fosse antes, nunca teria me notado. Ou se sim…”.
Pois, então, ela respondera apenas: “pára”. E talvez ela tenha parecido rude. Mas, na extensão exata da palavra pára, foi dito mais coisas. Na extensão e duração de som exatos desta palavra ela murmurou assim:

Quando (se) fosse antes, com o pouco de verdade que me deixam, sei (penso) o que iria acontecer: D’um modo ou d’outro, em uma roda extensa de conversa entre conhecidos e desconhecidos, te notaria (pois, mesmo se antes, você poderia fugir dos ditos sarcásticos-irônicos colados em você?). Pois em roda extensa de conhecidos e desconhecidos você se negaria a um dito sarcástico-irônico, um que seja?
Pois (com o pouco de imaginação que me deixam) penso que você não se negaria um (ao menos um, mesmo que fugidio) dito destes, mesmo quando fosse antes. E na roda de conversas, tendo você dito algo-sarcasmo-ironia, eu provavelmente acharia engraçado e, com a verdade que me resta, sei que eu gargalharia.
E como não te notar, se sempre busco (às vezes, ao menos) a possibilidade de sorrir?

Ela murmurou tudo isso (murmurou perdescondido, embrenhado nos vãos das letras, tudo isso grudado na grafia, tudo isso escalando o som da palavra numa tentativa desengonçada de fuga, murmurou tudo isso) precisamente dentro do tamanho e som exato da palavra pára.

morar com papai

Fevereiro 21, 2008

Passarinho não tem graça nenhuma. Tudo bem, é bonitinho, canta fininho de manhã – mas não tem graça nenhuma. Mamãe adora, adora o Teco passarinho. Ela chama ele de Teco. Passarinho burro. Só sabe ficar cantando sempre do mesmo jeito, ali, engaiolado. Não se pode pegar, não pode acariciar, ele não pensa. Passarinho burro.
Mas, mais burro que o Teco é o Cassabi. O cachorro burro. Todo cachorro é burro, mais o Cassabi é mais. É o burro do burro do meu irmão. Cassabi lambe meu pé e pula contente quando me vê – mas come meus cadernos, rói os móveis, faz cocô no tapete de casa. Cachorro burro.
Linda mesmo é minha gatinha. Minha e do papai. Independente e carinhosa – não me acorda cantando fino de manhã, não come minhas meias. Dorme na minha cama e acorda comigo de manhã e anda graciosamente pelo quarto e olha lindamente nos meus olhos. Só nos meus olhos e do papai. Olhos verdes em olhos verdes – só nós três temos lindos olhos verdes. Camélia é linda, minha linda.
Papai também adorava Camélia, vivíamos bem assim. Mas desde que papai foi embora só eu defendo Camélia – é uma tirania contra nós duas, agora mamãe odeia papai e, assim, odeia Camélia. Gata linda e esperta. Muito melhor que cachorro, bem mais divertida que passarinho.
Enquanto o Henrique burro brincava com o burro Cassabi, disse que o cão era o topo da cadeia alimentar de casa – aprendera sobre cadeia alimentar em uma aula de biologia na semana passada. Moleque burro! Falei pra ele que a humanidade havia desequilibrado a ordem natural (aprendi na aula de ontem) – e ele devia ter entendido.
Assim que Henrique e mamãe foram ao mercado, coloquei vidro quebrado na ração do Cassabi e realizei o sonho da Camélia: dei o Teco pra ela comer. Certeza. Agora é certeza que, quando mamãe chegar vai me mandar morar com o papai. Só eu, Camélia e o papai.

Fernanda Cristina
(25/03/2006)