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Pois, então, ele dissera: “fosse antes, nunca teria me notado. Ou se sim…”.

Pois, então, ela respondera apenas: “pára”. E talvez ela tenha parecido rude. Mas, na extensão exata da palavra pára, foi dito mais coisas. Na extensão e duração de som exatos desta palavra ela murmurou assim:

 Quando (se)  fosse antes, com o pouco de verdade que me deixam, sei (penso) o que iria acontecer: D’um modo ou d’outro, em uma roda extensa de conversa entre conhecidos e desconhecidos, te notaria (pois, mesmo se antes, você poderia fugir dos ditos sarcásticos-irônicos colados em você?). Pois em roda extensa de conhecidos e desconhecidos você se negaria a um dito sarcástico-irônico, um que seja?

Pois (com o pouco de imaginação que me deixam) penso que você não se negaria um (ao menos um, mesmo que fugidio) dito destes, mesmo quando fosse antes. E na roda de conversas, tendo você dito algo-sarcasmo-ironia, eu provavelmente acharia engraçado e, com a verdade que me resta, sei que eu gargalharia.

E como não te notar, se sempre busco (às vezes, ao menos) a possibilidade de sorrir?

Ela murmurou tudo isso (murmurou perdescondido, embrenhado nos vãos das letras, tudo isso grudado na grafia, tudo isso escalando o som da palavra numa tentativa desengonçada de fuga, murmurou tudo isso) precisamente dentro do tamanho e som exato da palavra pára.

Labirinto (parte I)

(um  conto de 2004; de quando eu era desavisada do mundo)

_____________________________________________________________________

Fitaram-se longamente, as expressões vazias. Ao mesmo tempo levaram uma mão aos seus cabelos pretos e esticaram um cacho particularmente mimoso.

__ Nojenta. – disseram ao mesmo tempo, em uma só voz: beligerante.

E continuaram a fitar-se, ambas esperando uma resposta ao insulto. Como nada aconteceu, elas foram enrubescendo lentamente e, súbito, crisparam o rosto na preparação de uma cuspida e cuspiram – com força.

Ângela ferveu de raiva, nojo. Baixou os olhos (as pálpebras tremendo). Sentiu agudamente o cuspe morno escorrendo, devagar, pelo seu nariz, bochecha, boca.

Respirou lentamente, lutando para não perder o controle. E, de olhos ainda baixos, levou (muito devagar) a mão ao rosto para limpá-lo.

Não encontrou nada.

Assustada, levantou rapidamente os olhos e viu o cuspe escorrer pelo espelho. Quedou-se a observar: havia bolhinhas pequeninas e grandes, intercaladas, se atropelando no movimento conjunto de escorrer. Bolhinhas se fundindo. Seus interiores transparentes e as bordas brancas… o que será que fazia o cuspe ser branco, meio branco? O quê?

Ouviu, ao longe, o dobrar dos sinos (a porra do som era gravado, é o tempo dos fajutos, som fajuto, igreja fajuta – tudo errado, tudo errado): meio-dia. Angélica, provavelmente chegaria em uns cinco minutos. Vez em quando aparecia, sempre nas terças-feiras, para falar um alô. Danilo, obviamente, não sabia ou não lembrava – senão, não estaria ali. Danilo sensível. O Danilo intelectualizado e tímido: belo.

Angela olhou para sua nudez através do espelho. Pressionou as mãos entre as pernas, absorta na mulher a sua frente, quase em transe. Despertou. Relanceou os olhos pelo banheiro, ligeiramente desorientada.

Pegou a toalha de rosto e limpou o cuspe do espelho com lentidão, depois, se arrastou – contra a vontade? – para a sala. Abriu uma fresta da porta de entrada e deixou-a assim. Só uma brecha aberta.

[continua]

Isso é sobre mim e músicas que me reviram.

Voltando do Uruguay, passando pelas pradarias do sul, a música that rocks me:

http://www.youtube.com/watch?v=RVzYQllSfKA

e  quando eu sugiro o play pra continuar a ler o texto, é uma sugestão sincera.

enjoy it.

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Ele é grande. Atravessa o clube abrindo caminho com os ombros. Arrogante, corpulento.

Fumaça de cigarros encorpam as luzes vermelhas.

Senta à mesa perto do balcão do bar, reservada para ele. Encosta o cotovelo na mesa e com a ponta do isqueiro coça a barba por fazer. Carrancudo, estreita os olhos ao observar seu redor. Acende cigarro.

 

***

Entra esbaforida pelo banheiro. Avisa:

- Ele ‘tá aí. Acabou de chegar.

Mary-Ann (boca de botão de rosa e olhos de diamantes magoados) mira Sarah de soslaio, o rosto sério, um ar entediado.

- Sério? – pergunta.

A faxineira observa disfarçadamente (boca torcida de inveja) as sandálias vermelhas de Mary-Ann.

- Claro… – Sarah replica. – Mas acho que ele ainda ‘tá furioso com você. Não soube? Ele disse ao Bill que quando a visse ia…

- Besteira! – interrompeu Mary-Ann, se apressando.

Mary-Ann: pernas longas entreabertas, ventre encostado na pia pra dar apoio, o quadril empinado. Com uma das mãos segura a pálpebra e com a outra aplica o rímel.

Semicerra as pálpebras ao ponderar algo.  Finge um olhar magoado para a amiga, através do espelho. Essa responde:

- Perfeito.

Riem. Mary-Ann sai do banheiro.

***

[sugiro o play]

Ele a vê andando em direção ao balcão do bar, próximo da mesa dele. Corpulento, ele se mexe na cadeira, inquieto. Ele, corpulento e arrogante, nota que ela não percebe a presença dele ali. Coça a barba com força, ainda mais incomodado. Carrancudo, confere que de onde está sentado pode observar perfeitamente a silhueta esguia e arredondada de Mary-Ann. A vaca.

Ouve-a pedindo o drink: a voz triste e desanimada, as pálpebras ligeira e tristemente baixadas sobre os olhos de diamantes magoados. Com os cotovelos apoiados no balcão, o queixo apoiado nas mãos: Mary-Ann tem a boca séria.

Da onde está pode alcançá-la.

Remexeu-se, bravo, inquieto. Ouve-a suspirar, ouve claramente.

Repentino, puxa-a pelo pulso com força, sem delicadeza. A faz sentar em seu colo e vê surpresa e certa fúria no rosto dela, que se debate pra sair do colo dele. Quando pega o queixo dela pela primeira vez, ela se esquiva, entre brava e amuada. Segura o queixo dela com mais força, a faz olhar pra ele – e Mary-Ann parece relaxar um pouco, os olhos (gotas de mágoa) se suavizando. Ainda com o rosto dela entre as mãos, a faz erguer um pouco o queixo. E diz com displicência:

- Give daddy a kiss, girl.

E ela finge tentar segurar um sorriso.

(tomando Brahma)
Fernanda: Cris, tô meio alta…
Cristiane: Eu também, hihi

Cristiane: Aproveita e escreve um conto.

 

(É fato. Fui escrever)

Ser preta

Resposta estética ao Ser Negra, de Camila Marins (que recomendo).

 

Janela (por Fernanda)

 

Aos 12 anos.

 Porque ainda era menina. Menina preta. Porque ainda era menina e porque assistia às TVs onde rostos de suprema beleza eram sempre loiros e porque lia contos de fadas (sim, sim, os lia avidamente) onde as loiras eram as mais nobres, onde as morenas eram bruxas. Se morenas eram bruxas, que dizer das pretas então? A menina tinha uma certeza atávica: beleza nunca lhe caberia, era fato.

Em sala de aula movimentos de pernas estridentes braços cabelos correndo entre carteiras lousa professora cadernos gritos matemática. Balbúrdia de alunos em aula de matemática. E a professora: loira, olhos verdes feito jóias de beleza fria. A menina no centro de um furacão cotidiano: tudo desfocado em gritos adolescentes e menina preta quieta, quedada em observação invejosa da loira-beleza-verdes da professora. Menina preta e feia.

Sufoco de gritos brincadeiras gritos adolescentes cabelos carteiras bagunça sala de aula lousa gargalhadas última aula do dia tudo bagunça adolescente professora berros correria carteira gargalhadas olhos verdes professora subitamente colados na menina preta gritos brincadeiras giz matemática risos lapiseiras canetas menina preta se empertiga na cadeira aviõezinhos de papel berros braços correndo meninos bola a professora olhos-verdes sentencia pra menina preta pega-pega carteiras matemática risos bagunça papéis aula adolescentes sentencia como se fosse feiticeira: você vai ser linda quando crescer giz correria matemática pernas estridentes carteiras gritos lousa.

Porque era menina e preta passou o dia todo calada, lívida. O dia todo com a boca rigorosamente fechada e os cílios atentos, olhos atarantados: ponderando que, então, existiam bruxas loiras.

 * * *

 Entre pessoas loiras, brancas, morenas-brancas. Em tudo semelhante à imagem de juventude rica que aparece nas TVs, que desistira de assistir. Agora era moça, mas ainda preta. E ninguém sabe como, nenhuma teoria do caos ou da conspiração pudera explicar como a moça preta fora parar ali: no quadro perfeito de juventude rica loira de TVs.

Pausa para foto: juntam-se todos. Sorriem-se todos para a foto.

O moço que tirou a foto (descuidado de sua loirice e das conseqüências de ser loiro) olha para o visor da máquina fotográfica.

Quando flash da máquina bateu sobre eles, fez da pele da moça preta um marrom-acobreado. Lisura doira-marrom, beleza alarmante, em um horizonte indistinto de rostos brancos e sorridentes.

Antes de passar a máquina fotográfica para que todos pudessem ver a foto, o moço fitou a foto (com os olhos verdes absortos) e ficou um tanto alarmado. Ao fitar, absorto, a foto ele comentou como se a verdade caísse feito um muro sobre ele. Ele comentou em murmúrio para a moça preta, comentou com a voz subitamente grossa de desejo:

_ Você é mais que eles.

Ela, que já sabia disso, que não podia fugir disso (quando o flash bate faz um marrom-doiro), respondeu com a simplicidade que verdades atávicas permitem:

_ Eu sei.

(foda-se)

Não te ensinou a bibliotecária? As numerações dos livros correspondem a temas, assuntos. Não te ensinou a bibliotecária?

Eu tenho cá um drama, que feito linha de lã de carne, se estende verticalmente dentro de mim: me prumando e desprumando. Quando olho no espelho, cônscia de que vou morrer, de que todos que conheço vão morrer, que o nosso tempo no mundo se esvai e nós: pedaço de carne apodrecendo dentro da caixinha de madeira (a-po-dre-cen-do). Não te ensinou a bibliotecária? A numeração é na ordem das centenas, a primeira centena é da filosofia e uns afins aí; não lhe ensinou a bibliotecária?

Tenho um problema e é feito uma linha de lã de carne (minha carne): as disposições do exterior determinam meu interior. E esse é meu problema número 2. Não estou falando de exterior enquanto cena de novela que determina meu interior, cena tão linda que me faz chorar. Não estou falando disso. Não. Não te ensinou a bibliotecária? Freqüento a biblioteca do IFCH há seis anos, ando sempre pelos mesmos corredores. A disposição das coisas no espaço, as luzes que o densificam, a força de amplidões, a vista do mar, a cachoeira de leite de luar sobre o fundo negro-infinitude do céu desestruturam minha corda de lã, como se ao invés de vibrar à minha volição, vibrasse por. Muitas vezes tenho medo.

Tenho um drama que é feito linha de lã de carne, tensionada verticalmente, dentro de mim.

Os corredores da biblioteca são organizados de acordo com os assuntos. Deveria ter te ensinado a bibliotecária. (Gosto quando ele segura, com força, meu pulso e  olhos nos olhos pergunta, sardônico: quer ou não quer?). Tenho um problema: a corda que me mantém tesa, equilibrada, não me obedece. Sob maldição materna: só sou feliz quando o sol irradia possibilidades. Quando o sol deita luz sobre o chão (e as coisas) o mundo se faz vasto. Não te ensinou? Não é como um sentimento de boa menina que gosta de dias de sol e rosas desabrochando no canteiro e passarinhos cantando. As rosas: prefiro-as deflagradas, murchando, rubro-negras (a-po-dre-cen-do) no quarto, sobre o livro jogado no canto. A bibliotecária deveria ter te contado sobre as numerações dos livros.

Há anos freqüento a biblioteca do IFCH. E, por alguma razão, naquele dia uma tristeza azul se armou dentro de mim. Uma tristeza azul e silenciosa e no meio dela a corda de lã de carne, tesa, reta.

Naquele dia, pela primeira vez tinha de procurar livros sobre políticas públicas e, não te ensinou a bibliotecária? Os corredores são organizados por assuntos dos livros. E os corredores dos meus dias que sempre freqüentei são sombrios. Talvez daí que ir até lá parecia sempre um retorno dentro de mim, lábios colados, olhos baixos, procurando livros, dentro e fora de mim. Corredores de meus dias.

Sou tátil (e esse é meu problema nº 47): enquanto a tristeza azul se mantinha quieta e devastadora dentro de mim, eu fui percorrendo a estante de numeração 310 e percorria olhando sem ver os livros, correndo os dedos (sou tátil) por suas lombadas. Quieta na sombriedade. Eu tenho um problema, eu sou o espaço que estou. Há uma janela enorme no final do corredor dos 310 (políticas públicas, não te ensinou a bibliotecária?) e ela fica voltada pra oeste.

Dedos percorrendo, tristeza avalanche e azul e quieta dentro de mim. Levantei de abrupto o rosto: pouco a pouco o corredor dos 310 fica cheio de um bloco sólido-mel-laranja de sol.  Só este corredor assim: laranja. O sol laranja, forte: morno no seu envolver, oeste no seu envolver. O Sol. Do fundo da minha tristeza azul não pude refrear o murmúrio: os que pesquisam políticas públicas são mais felizes.

(digressão: Rubi é ruiva e bruta. Eu, particularmente, não gosto dela)

 

— Eu vou sozinha, ouviu?! Eu vou sozinha! – sentia uma pequena satisfação em pensar que havia machucado a mãe. Desfez raivosamente a trança que lhe caía sobre as costas enquanto abaixava-se sobre o tapete, e, de quatro, tateava o chão à procura das sandálias, se esforçando para reconhecer os borrões destas. A mãe, ainda ao chão, entregou-lhe a sandália que procurava. Rubi pegou esta com força, com raiva. Pronunciou, emburrada, enquanto vestia a sandália:

— Eu sei fazer as coisas sozinha. Não precisa ficar me seguindo. Por que você não vai lá com o pai?

Margarida levantou do chão e, sem nada dizer, voltou para o quintal e continuou a macerar a massa. Sempre levantava os olhos da tarefa ao entrever Rubi passando pela sala, tateando algo no quarto ou parando na janela, para usar a luz do sol como ajuda pra reconhecer o que tinha nas mãos.

continua…

(pra ler as outras partes um clique aqui).

woods

Me soca. É como um soco. Essa música surge, sem aviso, e ela é como um soco. Algo dentro de mim (entre as entranhas do ventre e a garganta) se move: e não é o coração, não é. Quando essa música vem, algo dentro de mim se move. É um suspiro embrenhado, preso, dentro das veias. Quando ouço os primeiros acordes, é como se levasse um soco. É uma dor que não dói, mas eleva – como todas as dores fazem elevar (o ser? Elevar o ser? Hein? Hein?). Um suspiro, dentro das veias. Dores físicas ou de sentimento de morte (que são as únicas dores que existem) elevam. E essa música faz doer. É como um soco em mim. Toda vez que ela me leva, sei (embora não compreenda) um pouco mais de mim. Eu sou um tanto dessa música.

  

a música é "Woods", de Bon Iver. essa daqui do link ó:
http://www.youtube.com/watch?v=TBh-0oHm9Ak

 

 

 

 

 

 

 

Antônio. Querido.

Como senti-me (não sozinha; mas sem sua mão que.) ponderei que era momento de fazer um bonequinho de você. Poderia usar minha pele como pano para costurar o boneco. Mas, de longe, minha pele não tem em nada o mesmo tom (a mesma cores) que a sua.

Optei, já era momento (pois eu nem tão sozinha; mas eu sem poder te.), de fazer um boneco de você. E minha pele não poderia servir como pano. Não pense que eu tinha medo da dor de ma-arranca-la, pois essa dor não se compara a este meu rancor (mudo). A dor de ma-arranca-la não se compara ao vazio (desvairodasuamão: na  parte de trás da minha coxa, empurrando minha perna pra cima, pra cima) da sua falta. Costurei o boneco com uns retalhos de mundo e peguei um punhado do céu que se reflete n’água d’um rio (dubiedade entre o verde e o azul) e coloquei nos olhos do boneco, para imitar a cor dos seus.

Pra fazer o boneco de você minha pele não serviria. E, talvez, o que me choca e me destrói-de-paixão é você ser-me o oposto. Peguei o punhado de céu refletido n’água e fiz os olhos do teu (meu) boneco e, sentada no chão do quarto, com as costas apoiadas na lateral da cama, pedi ao bonequinho:

 - Sorria pra mim.

Chacoalhei o boneco, com um desespero meio disfarçado. Pedi três vezes, pedi cinco, pedi dezessete vezes:

 - Sorria pra mim.

Em alguma delas acrescentei um desonroso por-favor. Sorria pra mim, por-favor.

E você, querido olhos-verdes-azuis-água, oposto (em tudo) de mim – de paragens tão longes terá sentido a doçura dessa macumba? Hein?

[A outra história de Rubi #3]

 Rubi #4 (por Fernanda Cristina)

Restara apenas que: pra tudo e pra todos [pro coraçãodamãe-que-palpita-nojento-de-tanta-preocupação] sua filha era Rubi, menina vermelha. A filha que lhe acontecera depois de velha, uma menina quase cega, mas uma menina de olhos ruivos. Ruiva a sua Rubi

 

— Então, você vai lá? – Margarida perguntou de novo limpando as mãos no avental; adentrando na casa exatamente sobre os passos que a filha fez. Andou pela casa, sempre seguindo os passos da filha, tentando antecipar seus gestos ou desejos, tentando facilitar tudo, vivendo somente pra ser os olhos (vermelhos) de Rubi.

 

Rubi circulou pela casa pequena, preparando as coisas para sair; sua mãe seguia-lhe os passos, sempre silenciosa. Quando separou a cesta para levar e se voltou para pegar uma maçã, a mãe silenciosamente colocou os potes de geléia que Rubi guardaria ali. A moça ignorou a mãe. Rubi, ainda quieta, tateou a gaveta da cômoda de seu quarto, procurando pelo laço de cabelo; sua mãe apareceu e, silenciosamente, intrometeu a mão na gaveta ao mesmo tempo que a filha e retirou, rapidamente, um laço vermelho. Sem que Rubi pedisse, Margarida postou-se atrás da filha e puxou os cabelos desta pra trás; fez uma trança comprida com o cabelo volumoso e ruivo. Usou os laçarotes vermelhos para fixar a trança. Rubi apertava os lábios, exasperada. Nada dizia.

 

A mãe continuou seguindo-a silenciosamente pela casa. Quando Rubi separou as sandálias que ia vestir, sua mãe arrebatou-as de sua mão e empurrou gentilmente os ombros da filha, fazendo-a sentar no sofá. Diligentemente, Margarida pôs se a calçar as sandálias em Rubi.

 

A moça moveu-se com violência. Desviou, com raiva, o pé que a mãe segurava para amarrar a sandália. Levantou-se rapidamente, com movimentos bruscos, o rosto crispado de raiva. No ímpeto de se levantar e se livrar de Margarida, Rubi chutou (quase sem querer, quase) duas ou três vezes a mãe, passara por cima dela (que desequilibrara e caíra no chão). Rubi parou no meio da sala, virou-se para o borrão escuro sobre o chão e, dedo em riste, gritou:

— Eu vou sozinha, ouviu?! Eu vou sozinha!

 

[continua]

 

 

 

Begônia (por Fernanda)

 

Só depois que percebi que, em verdade, o desta tarde era ele. Esse mesmo, que me aparecera em Salvador, sentado sobre as pedras lisas e quentes do Pelourinho (paredes coloridas, coloridas, coloridas). Lá em Salvador viera já com os olhos verdes, porém manco: fora essa a Primeira Vinda. Nesta tarde, ele veio novamente com olhos verdes (embora fossem outros os trejeitos e sorrisos) e novamente viera persuasivo. E esta foi apenas a Segunda, daí a certeza de que, ainda que inteira, eu já esteja destruída (a pele lisa e saudável escondendo as entranhas, que vêm quebrando feito blocos de pó).

oOo

Ele estava ligeiramente bêbado. Plena manhã e ligeiramente bêbado. Africano, embora com a pele de um marrom demasiado claro, muito claro claro e claro e os olhos (tinha uma cicatriz sobre uma das pálpebras pesadas) de um verde sólido, inteiriço. Às vezes flagrava uma espécie de diversão nos seus olhos, uma diversão malvada. Teve sempre brincadeiras de uma delicadeza bruta.

Talvez ventasse. Provavelmente ventava, pois era um dia preferido. Meus dias preferidos: sol com vento. Ao atravessar a porta: uma sala sem paredes e sem teto; colunas de cimento e vigas de madeira subindo ao céu. A luminosidade do céu azul-perfeito estourando feito arma em meu rosto. O vento agitando minha blusa, agitando as folhas de sulfite que eu carregava na mão. Tenho medo (ou susto) de altura: invariavelmente, sinto náuseas. Medo.

Ele seguiu até a beira da sala, que sem paredes, era apenas um pequeno precipício urbano, lá embaixo uma perua estacionada, o asfalto sujo de cimento, ao redor os eucaliptos agitados, balançando com certa fúria e a luminosidade ferindo nossos olhos de azul-céu (perfeito) e uma confusão de madeira, cimentas, colunas em construção, eucalipitos. Ele seguiu até a beira da sala-precipício, parou ali e ficou a olhar pra baixo, as mãos nos bolsos da calça. Ficou de costas pra mim. Enquanto eu, agitada pelo vento, me dividia entre: ou morrer de amor (pelo céu azul e o vento, dia preferido) ou matar por precaução o homem à minha frente. Seria fácil, ninguém veria: era só empurrá-lo. Algo em mim morria, morria, morria ao vê-lo parado, à beira do precipício, charmoso ao me cultuar como linda, mesmo não me dizendo linda, mesmo pouco ligando pra mim.

Não sei bem se antes de encontrá-lo ou a um passo da minha fuga: perdidos em algum corredor, ele pegou meu pulso e o virou pra cima. Nada disse: virou meu pulso pra cima e sorriu (olhar malvado carinhoso). Nada tinha dos chifres ou pés de bodes e eu acho que deveira ter, assim teria evitado confusões.

Súbito, entramos em alguma sala de aula proibida, ainda em construção. Não havia teto nem paredes, apenas o chão da sala de aula de um primeiro andar, o solo 5m abaixo. Precipício.

Me divertem brincadeiras com meu medo de morte. Medo de escada, medo de atropelamento, susto de altura, medo de beiradas precipícios, medo de trovões, medo de solidões. Empurra-me pela escada, empurra-me; empurra-me que, embora verdadeiramente apavorada (é preciso atentar às palavras: verdadeiramente apavorada), eu rirei. Frente aos meus medos o desespero duela com o riso. Divertem-me brincadeiras de morte.

Ele estava de costas. Vê-lo ali, parado a beira do pequeno precipício, bonito, fazia algo agonizar (de bocado em bocado) dentro de mim. Ou morria de amor pelo sol cegante e o azul-perfeito ou devia matá-lo,só pra garantir minha sobrevivência. Ele parado de costas, charmoso: e virou apenas o rosto, pra me observar, assim, de lado mesmo. Olhos grandes e verdes de uma solidez malvada. Tinha sotaque de quem tem como língua materna o inglês; disse assim:

- Quer ser minha garota? Hem? – falou delicamente, embora pouco conseguisse disfarçar uma brutalidade de sentimento de posse.

- Quer ser minha garota? Hem?- o vento agitando-nos. Estreitei os olhos, silenciei. Sorri malvadamente também, mas nada disse.

- Você é minha garota? Sabia? – sim, sim. Eu sabia e morria por dentro. Morria. Ligeiramente bêbado, ele balouçava na beira do abismo. Sorria carinhoso e bonito (tão bonito que algo dentro de mim morria; quanto mais observava-o eu morria, morria por dentro, morria aos bocados):

- Minha garota, hem?

Passei a rir como quem dissesse: não, não sou sua. Ele riu também embora sorriso algum podia esconder o melindre de seus olhos, a vilania de sua querência.

Veio meio brincando, meio correndo e se postou atrás mim. Segurou-me pelos ombros delicadamente e impelimiu-me pra frente, pra beira do abismo. Paramos na beirada e ele cantarolava, brincando, murmurando junto a minha nuca:

- Vamos nos jogar daqui, hem? Hem?

Bruta delicadeza. Brincadeiras de morte. Ri, desvencilhei-me. Pilherei:

- Já passei da idade de tentar me matar. – ele adorou, riu com gosto. Balançava a cabeça, rindo, como se inconformado.

Eu flagrei, vez em quando, um olhar verde-limão-sólido trigueiro (avaliativo e melindroso) sobre mim. Talvez, nos primeiros momentos, quando nos conhecemos e nos abstivemos de falar nossos nomes. Quando eu o flagrava, ele sorria como se pudesse suavizar seu maquiavelismo – ou talvez estivesse exibindo-o, no primeiro movimento de sedução.

Fosse maior o tempo, fosse maior e seria o início do fim. Meia hora da minha vida que gastei com ele e fora suficiente: cumplicizamos pequenas malvadezas com os outros, esbarramo-nos as mãos, rimos, discutimos o mundo e Deus e, explicitamente, mas sem palavras, cogitamos matar um ao outro (por sobrevivência ou ciúmes, nem sei). Seria mais fácil, seria tudo mais fácil e claro e simples e eu não titubearia tanto se ele ostentasse chifres vermelhos e fumegantes, mas já esta era a Segunda Vinda e ele tenta evitar os clichês.

Dado momento, não sei se antes ou depois de ambos terem (secretamente) cogitado o assassinato um do outro, ele argumentava, com voz pausada de quem explica a uma criança, os olhos verdes e duros contrastando com a rutilância do céu anil: “Você é minha garota. Ficaríamos ricos. Você é inteligente. Eu sou inteligente. Você é bonita. Eu sou bonito. Preciso de uma mulher como você. Seríamos ricos”. Nós contra todos.

Instanto-me à beira do abismo.

_ quer ser minha garota? – vê-lo me matava por dentro. Assim, lindo, eu morria aos bocados. Morria morria morria. Deveria tê-lo empurrado, quem veria?

E se ele me atirasse lá de cima seria uma morte justa, pois em vê-lo eu já morria, morria aos bocados, aos bocados, aqui dentro. Observá-lo charmoso e eu morria aos bocados, morria ao bocado de doce. Doçura na minha morte. Conforta-me: se ele me atirasse dali com certeza ele choraria com sinceridade a perda de mim. Porque é próprio dele. Porque isso é próprio dele. Reconheci-o.

oOo

Só depois que despistei-o foi que o reconheci. Deveria ter atentado aos olhos verdes. Afora a sedução velada, a solidez dos olhos verdes foi a única coisa que ele se permitiu repetir nesta Vinda. Brincadeiras de morte. Ficar com ele, quedar junto a ele seria o mesmo que morrer. Afundar-me em tudo que me destruiria, em tudo ilícito, em tudo tranhas de degradação e, exatamente afundada assim: ser feliz. Ele foi muito mais persuasivo nesta Vinda. Muito mais. Mesmo aqui, inteira e lúcida, já me sei perdida e morta, pois na Terceira Vinda, obviamente, ele virá indiscutivelmente (desesperadamente) irresistível. É simples: já estou morta.

 

(julho/2008)

por Fernanda

O sol ia alto. Margarida estava dobrada sobre o grande pilão, o suor molhando o rosto, molhando a roupa, molhando os cabelos mal presos. Socava a massa, farinhando-a. Ela parecia concentrada no serviço; mas seus lábios se contraíram com força, com brabeza, quando viu (de relance) sua filha Rubi caminhando para o varal de roupas. A moça recolhia a saia que costumava usar pra sair. Margarida aplicou mais força sobre a massa, descontando a frustração nos golpes rítmicos.

­- Então, você vai lá? – ela perguntou à moça, sem parar de macerar a massa.

Sua filha confirmou com um aceno de cabeça, enquanto desprendia a saia do varal. Rubi adentrou com a cabeça baixa dentro de casa, apalpando a saia, pra conferir se estava totalmente seca. Margarida fingia não descolar os olhos do pilão. Quando Rubi sumiu porta adentro, a velha parou de socar a massa e, com o rosto torcido por leve raiva-amargura, espalmou a mão no meio do tórax, massageando (desgostosa) o peito.

Em verdade, sua filha não se chamava Rubi. O nome de sua menina era Sandra. Sua filha única, filha de sua velhice, viera somente pra dar surpresas. Sandra nascera toda castanha: pele castanha, cabelo castanho, olhos castanhos. Quando com três meses, aquele conjunto de peles (aquela rosto pequeno de joelho) finalmente começou a parecer um pingo de gente revelara cabelos vermelhos (surpresa). A pele continuava castanha, entretanto, os cabelos se tornaram ruivos como os da avó. E, conforme cresceu o bebê, casualmente, notaram que o castanho dos olhos de Sandra tornaram-se um tanto claros, um tanto caramelados, um tanto furta-cor. A menina é um rubi, o médico gracejara.

Restara apenas que: pra tudo e pra todos [pro coraçãodamãe-que-palpita-nojento-de-tanta-preocupração] sua filha era Rubi, menina vermelha. A filha que lhe acontecera depois de velha, uma menina quase cega, mas uma menina de olhos ruivos. Era ruiva a sua Rubi.

[continua]

 

cecilia-interludio Então respondi:

O Alvoroço de Helena

Helena está com o âmago um tanto que alvoraçado. Ela atravessa a sala silenciosamente (cuida pra fazer o mínimo de barulho), pára frente à janela, espalma as mãos nos vidros e observa o céu que anuncia tempestade. Ele está do outro lado da sala, lendo coisas seriíssimas, seriíssimas (cogita Helena).

Silêncio de túmulo.

 Ele lê, do outro lado da sala. Seriíssimo.

 - Noite horrenda.

Ela comenta por comentar. Quase grita: Noite horrenda! Há um alvoroço silencioso no âmago de Helena.

 Silêncio de túmulo. Ele não levanta os olhos do livro.

Ela espera sem se voltar pr’ele. Espera. Eternidades depois, desatento, ele lhe responde.

- Claro, claro. Noite horrenda.

    Helena se acalma.

   (set/2008)

Toda galinha

“Toda Galinha” saiu de uma releitura do conto A Galinha, da Clarice (louca) Lispector. E “Toda Galinha” também participa do e-book do Concurso Literário Aumente um Ponto. Esse conto é o próprio reforço (involuntário) de uma ligação que me colocam, mas que pouco entendo d’onde surgiu: muitos (muitos mesmo) traçam uma parecença dos meus contos com Clarice.

Li muito pouco dela, li muito mais a Lygia (F. Telles), muito, muito mais. Os textos de Lygia: sempre de um rancor belo, d’uma indefinição entre bem e mal, daí minha paixão por. E eu sempre fiz as escreventuras correr em direção à Lygia. Clarice me parece muito mais racional e cortante feito faca torcida no meio do ventre, uma vertigem de dor de existir, de andar em corda fina pensando existência que nada vale. Tenho medo de ler Clarice e pouco a leio e justamente e justo e justamente me reportam parecença com ela. E nestas horas é dífícil conciliar que somos o que escrevemos. Um assumido lado Lispector (racional e cortante feito faca torcida no meio do ventre, uma vertigem de dor de), aí, abaixo.

Um retorno (não perfeito, mas um retorno).

 

Toda Galinha

 

Muitas vezes chamavam-na galinha. Ela acordou com o despertador apitando estrondosamente e levantou-se com vagar da cama; eram cinco horas da tarde. Não se comoveu, não duelou.

Depois de um banho leve, passeou com lentidão pelo apartamento pequeno e atulhado, nua em sua calma. Retirou a lingerie do varal, pôs uma música melancólica no rádio da sala e sentou-se, molemente, em frente à penteadeira do quarto. Observou pelo espelho, sem crítica e sem amor, seus seios enormes e pendurados. Não queria, não se debatia nada, não se debatia tudo.

Acomodou melhor a bunda nua na cadeira. Movimentos lentos transmutaram seu rosto, escureceram fortemente o contorno dos olhos, esverdearam (um verde escuro, escuro) as pálpebras, cobriram o rosto de pó e blush e tingiram a boca de um vermelho profundo de vulgaridade – e também de morte, que ela não via; e se ela imaginava, ignorava sem ostentação.

Trabalhou: engoliu porras. riu das outras. o cu ardeu. cuspiu chicletes. vomitou xingos. retocou maquiagens. fingiu sorrisos. fabricou bucetas. bebeu águas. despencou carinhos. estapeou vadias. vadiou-se. passou batons. enfraqueceu famílias. esfregou carros. gritou (no chão) a janta. foi fodida por mulheres. esmigalhou baratas. chutou bichas. odiou. esfolou vida no chão. sangrou asfalto. morreu. tragou nadas. baforou gargalhadas. recebeu dinheiros. cuspiu escárnios. sentou em picas. tomou cervejas. correu.

Assim que chegou ao apartamento, não dormiu imediatamente. Com cuidado (lentamente), retirou a roupa desconfortável e andou pela casa, nua (em sua calma). Pôs uma música animada para tocar. Sentou-se na penteadeira e, vagarosamente, (quase sugerindo amor por aquele rosto) foi retirando a maquiagem. Não sorria, não chorava. Fuga não figurava dentre a sua mornidade. Sonhos, cansara-os de escarrar no próprio espelho – agora era uma galinha, mas não se sabia galinha. Era lânguida em sua ignorância – de si mesma. Só lhe faltava penas de verdade e um bico mais afiado e amarelo, no entanto, os olhos eram de galinha, olhos redondos, piscando para todos os lados, castanhos e redondos sem querer compreender o mundo, só piscando, piscando, enquanto a cabeça se move ininterruptamente, atrás de milho e de água, só.

Leu gibi enquanto fazia cocô. Tomou um banho demorado, lavou os cabelos baços e loiros, cantou no chuveiro. Andou nua, toda calma, toda galinha, pelo apartamento. Era uma galinha, se de sua garganta escapasse um cócóricó, não seria estranho. Galinha, pois, não debatia, não duelava – discurso de futuro não lhe fazia sentido. A idéia de fuga coisa de pintinho sorridente e imaturo. Não se debatia nada, não se mastigava tudo. Não queria e não desqueria. Quando apalpavam-na, ela mesma não se sabia gorda ou magra.

Era galinha de domingo, era calma. Galinha de domingo cata milho e não sabe que está sendo preparada para o almoço; não sabe o que é futuro. Não se sabia nem galinha, não se sabia domingo. Lia revista, pintava a boca de vermelho vida, o mesmo vermelho morte. Mas não se debatia, não via no espelho os olhos castanhos e redondos de galinha. Dormia calmamente, dormia galinha, vivia galinha, toda galinha.

Mais uma vez, acordou com o despertador tocando, às cinco da tarde. Maquiou-se com vagar, música lenta na sala, lingerie velha e de renda preta ali, jogada na cama. Calma de galinha, penas (falsas) pretas de renda de galinha, foi trabalhar.

Trabalhou: abriu-se pica. riu asfalto. gritou baratas. chorou risos. matou bucetas. bebeu dentaduras. transou carros. engoliu dinheiros. lambeu cigarros. estapeou cervejas. cheirou bichas. meteu mortes. penteou batons. riu. lavou porras. cagou vadias. mijou famílias. morreu. não sentiu dor. pagou sua putice. sentou em paus e barrigas.

Novamente, às primeiras horas do dia voltou. Voltou devagar para o apartamento, andou lânguida em sua calma de galinha. Olhou para o calendário e: assustou-se!

Correu farmácia. matou manhã. fez xixi em copinho. chorou. foi genuína. desesperou-se. chorou. chorou. descabelou-se. viu seus olhos castanhos no espelho. rosto borrado. chorou. desenfreio. fremiu horrores: gravidíssima, gravidíssima.

Olhou para seus olhos castanhos, através do espelho, e não viu galinha. Foi engolfada e linchada pela idéia de futuro. Quebrou-se ao meio ali, no apartamento entulhado. Dobrou-se agarrando o ventre com força, ajoelhou no chão, da garganta escapava (involuntariamente) ganidos desarticulados de desespero. Sentiu a vertigem de um certo medo, vertigem talvez de necessidade de proteger aquele útero que inchava. Chorou desenfreada, atordoada com a ausência da calma galinácea – de toda galinha.

Sentia as entranhas torcidas e às vezes inspirava fundo – em dúvida se havia se esquecido de respirar. Chorou pelo filho. Imaginou seus olhos castanhos no rosto de uma criança, sua criança. Mas os cabelos seriam de quem? E a boca e o lóbulo da orelha, de quem? Era júnior de quem, aquele seu útero que inchava, inchava e, assim, inchado, lhe inspirava medo? Desenfreou-se.

Debateu-se toda pelo apartamento, cuspiu toda a galinha. Abrupto soube-se galinha, toda galinha e odiou isso. Trouxe todo o apartamento abaixo, quebrou móveis, odiando os domingos, odiando todas as porras, as femininas e as masculinas. Destruiu o apartamento e distribuiu suas entranhas pelo móveis que quebrava junto ao chão. Desesperada – relembrando, saudosa, quando era (momentos atrás) toda galinha e, com suas penas (falsas pretas rendas) e com seu bico (vermelho sangue vida baton de morte) a idéia de futuro era coisa de pintinho imaturo.

Passou dois meses sem que se putasse. tentando amigos. chorando frustrações. fazendo currículos. fugindo cafetão. batendo às portas. ligando mãe. comprando largos vestidos. comprando roupinhas (com laçarotes, babados) de bebê. tentou, tentou de verdade.

Acordou em um sábado de manhã. Passeou dignamente pela rua, pelo parque, lânguida (não por ser toda galinha, mas por matar a galinha assim que se sentiu ovo, toda ovo). Ia ser mãe e caminhava devagar pela rua, exibindo o útero inchado – usufruindo da dignidade e do sabor de futuro que a barriga lhe trazia. Era quase ridícula, ao exibir silenciosamente, a barriga pouco crescida. Tinha de usufruir, furiosamente, disso. Último passeio.

Entrou na farmácia, pagou (escusamente) o remédio, com o dinheiro emprestado pela a colega – pois não tinha dinheiro nem para o aluguel, não tinha dinheiro nem para a comida do mês. Voltou para a casa, caminhando digníssima, orgulhosa do júnior desconhecido que carregava no útero. Entrou no edifício vagarosamente, para não chamar a atenção da cobradora do aluguel (azeda em sua perseguição pelo dinheiro) que morava no andar de baixo.

Ela entrou no apartamento com sinais de cansaço. Sentou no sofá velho e pôs-se a passear uma das mãos distraidamente pelo estofado. Com a boca inexpressiva e o olhar vagando pelo nada, tentou (com sofreguidão muda) se lembrar do gosto de domingo, do gosto de calma de galinha de domingo. Não queria mais ser bicho ignorante de idéia de futuro, não queria.

Era final da tarde. Vestiu o pijama, retirou vagarosamente a maquiagem leve (maquiagem de mãe) do rosto. Sentou-se na cama e, como indicado (escusamente) pelo farmacêutico, tomou dois compridos; pousou o copo de água na cômoda e inseriu mais dois comprimidos (o mais fundo que pode) dentro da vagina.

Com lentidão, abriu a primeira gaveta da cômoda e pegou a tesoura afiada. Ao seu lado, sobre a cama, estavam mimosamente dobrados seus vestidos de gestante e o enxoval mal começado do bebê. Com falso estoicismo, pôs-se a picotar todos estes suaves tecidos, sistematica e vagarosamente. E assim esperou, silenciosamente, a dor (no útero).

vontade

mias cores

 

de apagar o blog. enquanto dura a vontade, ele pára. porque, em verdade,

não queria apagá-lo. porém, veja só, eu quero.

adeus, até mais, nos vemos por aí (ou não), tchau e correlatos.

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