Agitato

Fevereiro 7, 2008

agitato 

Às vezes, surpreendo uma pieguice em Cecília e isso me põe impaciências de irritações (mas sempre pequenas). No entanto, posso eu lá desejar que ela se rasgue desacralizações, quando em verdade, parece que ela não viveu estas?

Mas, de Cecília, é cravada a verdade do que é fazer da poesia um poema. E para o bem da verdade, é preciso saber ler o poema (para que ele doa no peito, se tornando poesia). Ou, antes que saber ler, é preciso estar desarmado. Desarme-se e: pimba! O poema (a mão) de Cecília agarra com força (aperta, piedade alguma) suas entranhas de leitor e torce-as, levemente. Pois, na verdade, Cecília sabe fazer.

Conquanto, a verdade será plena se saber ler (ou, antes) estiver desarmado. Daí o conselho: deite na cama, espere os olhos se turvarem de cansaço, espere o limbo entre o sonho e a realidade; espera e põe-se a ler que: pimba! Cecília te pega.

Deitada em minha cama, depois que li Cecília, ficou difícil conciliar o sono. Fiquei menina desarmada, perdida entre as cobertas, no escuro, com a boca fechada de ataranto e sob minhas pálpebras fechadas (trêmulas) ficaram impressas silhuetas vagas de moça feita de solidões noturnas, suspiros de dor de morte, medos de marejar os olhos, muito vento, muito vento, vento a agitar tudo. A agitar-me o âmago. Fiquei moça perdida medrosa, pois Cecília sabe fazer.

Conselho sério_ leia devagar, saboreie palavras:

Agitato
(Cecília Meireles no livro Nunca Mais…)

Os violinos choram, soturnos,
dentro da noite morta e triste,
elegias vãs de Noturnos…
E nada existe… nada existe…

Sombras. A câmara apagada…
Sombras… Meu vulto é longe… ausente
Silêncio… Calma… Sonho… Nada…
Vago, leve, indecisamente…

Noite. Que noite!… Pelas bordas
das jarras negras, morrem lírios…
Chopin. Falecem pelas cordas
Trêmulas, trêmulos martírios…

Andam, no vento, aromas soltos,
saudades lentas… Alto, passa
o véu do luar nos céus revoltos,
cheios de signos de desgraça…

One Response to “Agitato”

  1. Noturna de Solidão ou Agitato « .numa dessas Says:

    [...] Deus”. Os lírios fedendo horrendamente e ela não nota, pois tem desespero na voz de velha: “Que noite”, ela [...]

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