morar com papai
Fevereiro 21, 2008
Passarinho não tem graça nenhuma. Tudo bem, é bonitinho, canta fininho de manhã – mas não tem graça nenhuma. Mamãe adora, adora o Teco passarinho. Ela chama ele de Teco. Passarinho burro. Só sabe ficar cantando sempre do mesmo jeito, ali, engaiolado. Não se pode pegar, não pode acariciar, ele não pensa. Passarinho burro.
Mas, mais burro que o Teco é o Cassabi. O cachorro burro. Todo cachorro é burro, mais o Cassabi é mais. É o burro do burro do meu irmão. Cassabi lambe meu pé e pula contente quando me vê – mas come meus cadernos, rói os móveis, faz cocô no tapete de casa. Cachorro burro.
Linda mesmo é minha gatinha. Minha e do papai. Independente e carinhosa – não me acorda cantando fino de manhã, não come minhas meias. Dorme na minha cama e acorda comigo de manhã e anda graciosamente pelo quarto e olha lindamente nos meus olhos. Só nos meus olhos e do papai. Olhos verdes em olhos verdes – só nós três temos lindos olhos verdes. Camélia é linda, minha linda.
Papai também adorava Camélia, vivíamos bem assim. Mas desde que papai foi embora só eu defendo Camélia – é uma tirania contra nós duas, agora mamãe odeia papai e, assim, odeia Camélia. Gata linda e esperta. Muito melhor que cachorro, bem mais divertida que passarinho.
Enquanto o Henrique burro brincava com o burro Cassabi, disse que o cão era o topo da cadeia alimentar de casa – aprendera sobre cadeia alimentar em uma aula de biologia na semana passada. Moleque burro! Falei pra ele que a humanidade havia desequilibrado a ordem natural (aprendi na aula de ontem) – e ele devia ter entendido.
Assim que Henrique e mamãe foram ao mercado, coloquei vidro quebrado na ração do Cassabi e realizei o sonho da Camélia: dei o Teco pra ela comer. Certeza. Agora é certeza que, quando mamãe chegar vai me mandar morar com o papai. Só eu, Camélia e o papai.
Fernanda Cristina
(25/03/2006)
Leave a Reply