Noturna de Solidão ou Agitato
Março 3, 2008
Velha. Sente-se velha. Aos 43 anos, indubitavelmente, velha. Agora, odeia esta casa, pois seu único amor em vida (sua mãe) já não a povoa. Morta há dois dias, sua mãe. E, subita e indubitavelmente, ela sente-se velha. Nesta noite, subita e indubitavelmente, é uma velha.
Das portas de vidro (da casa que agora odeia) ela vê o mar. Cola as mãos nas portas de vidro, tem o rosto congestionado, e olha o mar. Faz o esforço de um murmúrio, se esforça para ao menos murmurar, mas a garganta recusa o som. Olhos franzidos, ela abraça-se (tão velha, velha) e tenta pronunciar (não tem a força de um murmúrio): mãe.
A boca faz o movimento, mas o som se recusa (tem a força de uma velha; os lábios empapados de lágrimas abertos em um “O” perfeito): mãe? mãe? Força de uma velha chorona: não consegue pronunciar. Velha chorona e odeia-se por isso.
Olha o mar pela porta de vidro. Mar negro de noite. Ao alto, nuvens pumbleas correm desenfreadas pelo céu, loucas feito desgraças. A noite é dos mortos e daqueles aos quais só resta (só é possível) a vigília mórbida de um velório eterno. A boca torta borbulha o
murmúrio: “Noite, Meu Deus” (à frente dela um abismo de choro compulsivo).
Lábios empapados de lágrimas, contorcidos de dor de quase-choro. Abraçada a si mesma, anda pela casa odiada. Evita fechar os olhos, pois, sob as pálpebras fechadas estão impressas imagens de violinistas sangrados e sem lábios, mórbidos. Nuvens pumbleas correm pelo céu, desenfreadas como as piores desgraças. Sente-se velha e não nota que, ao passar pelos vasos de pedra negra de sua bela sala, os lírios murcham e fedem – nojentos e mortos.
Ela crava as unhas na pele, quando envolve o pescoço com as próprias mãos. Violinistas de faces descarnadas, mar revolto e sua mãe não está ali. Unhas adentram a própria pele sem perdão algum, nenhum perdão, nenhum. Sua silhueta é efêmera dentro da casa escura. Lábios (contorcidos) afogados em lágrimas, rosto congestionado. “Noite, Meu Deus”. Os lírios fedendo horrendamente e ela não nota, pois tem desespero na voz de velha: “Que noite”, ela sussurra.
Fernanda Cristina
(23/02/07)
Março 5, 2008 at 11:05 pm
Mexeu comigo. Pura emoção. Às vezes sinto-me assim. Às vezes noto a falta que minha mãe faz. E olhando em volta, sinto-me vez por outra com mais de quinhentos anos. E já passei dos trinta sem perceber. Mas a poesia é de um desespero quase calado, um grito sussurrado no ouvido do coração saudoso.
Lindo.
Beijos :)
Março 5, 2008 at 11:28 pm
Voltei pra dizer que que sua POESIA é linda mesmo. Bobinha… tentando me enganar, né?
Você escreve muito bem.
Beijo :)
Março 15, 2008 at 4:28 pm
poema-poesia não tenho dom pra isso, não tenho mesmo. só faço mesmo pq é forma de expressão e, como tal, é maior que eu. maior que a consciência de saber que não sei fazer.
:]