Bege

Abril 2, 2008

Uma luz clara. Luz clara amarela trespassando a porta de vidro da sacada. São Paulo lá embaixo, onze andares lá embaixo - cidade frenética. Luz clara trespassando a porta de vidro e tocando a pele. Aquecendo os pêlos loiros da mulher calma; plácida na sua quietude - imóvel.

Estava sentada no chão, sobre as pernas dobradas, com seu  vestido de seda rosa, no seu paraíso bege e marrom e acarpetado, de quadros com cores pastéis e móveis de mogno. Tombava o rosto levemente para a esquerda, as mãos levemente unidas sobre a perna direita, escutando (pela primeira vez, em anos) o tic-tac do relógio. O céu não é azul, de chão feito de nuvens. O céu é pessoal, é grande apartamento de bom gosto, é bege. O céu é perfeitamente decorado.

Passou a mão bem cuidada pelo pescoço; tocou o pingente de ouro sobre o busto; suspirou docemente. Ao lado dela, o carrinho (amarelo, vermelho e azul) de plástico - uma rodinha estava jogada no canto, arrancada pelo menino lindo e mau. Suspirou. Gritou. Violência abrupta faiscando nos olhos arregalados. Desvairo. Tomou o brinquedo nas mãos e despedaçou-o. Descomposta, a saliva escapando da boca, o penteado desfeito - grunhia  inconscientemente. Bateu o brinquedo contra o chão. Uma. Duas. Três. Sete vezes. Xingou baixinho, sibilando. Abriu a porta de vidro com estrépito. Cogitou, rapidamente, se jogava o carrinho ou o próprio corpo sacada abaixo - onze andares.

Sentiu tontura. Jogou o carrinho. Observou com seriedade o brinquedo caindo edifício abaixo. Lembrou-se com um sorriso seco: a raiva de deus, quando caída do céu, é (para os ignorantes) dádiva divina. Que vissem.

O corpo dela oscilou, perigosamente.

(2.sem de 2004)

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