Márcia (final)
Maio 4, 2008
Com o rosto voltado para o lado, como se tivesse medo de encarar Márcia, a tia diz baixo e devagar (a voz fraca):
- Você está vulgar.
Márcia não se dá o trabalho de virar-se pra tia. A boca fortemente pintada sorri através do espelho. Ela avisa de volta (cínica):
- Você não é minha mãe.
Márcia se volta pra tia enquanto escova o cabelo e acrescenta:
- Irmã da mãe; e não mãe. - fingi amenizar as palavras sublinhando-as com os olhos enviesados e riso na voz. Dá as costas à tia; alarga o sorriso e torna a passar o rímel nos cílios.
A boca velha da tia entorta-se ainda mais. A tia sai do quarto, quieta, sempre engolindo, sozinha, brigas de tempestades. Márcia liga para amiga, combina horários e locais enquanto escolhe a sandália: gargalha comentários, riem do chefe, aumenta o volume da música para a amiga ouvir. É gostosa, sabe.
Desliga o celular, veste calça jeans justíssima. Aumenta música: frente ao espelho testa um sorriso trocista, testa um olhar sexy, um rosto sério, um franzir engraçadinho do nariz e confere sua gostosura: observa o movimento dos seios e dos quadris ao descer, dançando, até o chão.
Márcia tenta sair despercebida. A tia, da cozinha, chama-a para que tome a dose noturna dos remédios. Márcia pára à porta do aposento: a tia, mulher insossa, lava a louça; e o tio, homem trabalhador, janta a comida carinhosa da esposa, merecida após um dia árduo de labor. Mesmo que o rímel o baton o blush a base a sombra estejam intactos, Márcia sente a maquiagem escorrer devagar e espessa de inflexão. Mesmo que intacta, sente a maquiagem escorrer quando, ao observar essa sua família, tenta se lembrar se fora ela (aos quatro anos de idade) ou os tios (quando abriram os braços e a casa) que estipularam que nunca os chamaria de pai e mãe. Dose de amargura.
A tia, um horror de solicitude e carinho, já havia preparado o copo d’água com os comprimidos dispostos ao lado. Márcia senta ao lado do tio, que está a jantar, e toma seus remédios - amargos, amargos. Ela e o tio conversam animadamente sobre a noitada que Márcia terá. A tia avisa baixinho, voz de sempre quase medo: você está vulgar. Márcia (exasperada com a velha) diz que está na moda, diz sorrindo que a tia não sabe o que está na moda. O tio ri e, virando-se para a sobrinha, avisa-a: você está bonita, não ligue para a tia.
Tio coloca uma mão na coxa de Márcia, do lado interno da coxa. A mão sobe, lenta, sôfrega, em direção ao sexo e desce: uma, três vezes.
Márcia sorri para a tia. Sorriso salgado de vontade de chorar, porém duro e cínico - feito metal entrando na carne. Márcia tem vontade de sussurrar com troça: vê isso, sua velha? Vê? A tia, feita de medos e carinhos, desvia o rosto - engolindo tempestades.
Márcia levanta-se, com pressa. Márcia sai da cozinha, barulho da sandália ressoando pelo silêncio que era o assoalho. Márcia sente nojo dos seus seios altos, da calça que desvela sua bunda, dos saltos finos e brancos da sandália. Tem vontade de vomitar os remédios que entopem seu estômago.
* * *
Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe - alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.
No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada.
Maio 4, 2008 at 5:50 pm
Muito bom.
Maio 7, 2008 at 9:54 am
É um curta, sem dúvida. Contemporâneo, mordaz. Real e romântico. Trágico.
Faça outros.
Beijão.
Maio 12, 2008 at 11:38 am
Legal, os verbos no presente sempre tornam a ação mais ágil, imediata, como num thriller. O tema atual parece repertir-se em toda casa onde haja uma (ou um) adolescente rebelde. Parabéns.
1 abraço.
Maio 21, 2008 at 8:19 am
bom que pareça um curta. a verdade é que este texto veio de um exercicio litarário. Era preciso escolher uma musica e escrever o texto junto com ela. Como meu negócio nessa vida é ir na contramão, ao invés de escolher mpb ou mozart ou sei lá, escolhi o funk carioca “Boladona” da Tati Quebra Barraco…
Deu no que deu: verbos no presente, a sensação de um curta… que bom que deu certo.