Ária para Fernanda

(Maria de Fátima Prado-20/05/2006)

Ah menina, não te engane por esses desenhos nos muros, de uma criança empinando uma pipa, mas na

verdade é a pipa que empina a criança e ela nem percebe isso!

Vê aquele homem correndo verticalmente em direção ao sol,

sem conseguir conter a náusea? A vida o deixou assim;

chorando a inocência dos monstros, sentindo a cartilagem dos feridos…

Agora o chamam de louco. Idiotas! Não vêem que ele

está a fazer poesia…

Falar-te de flores? Como? Se as que plantei

nem me lembro onde para poder colhê-las?

Vê em mim essas marcas de vinho tinto?

é assim que escrevo um livro pois

roubaram me a biblioteca, caverna de palavras

puras onde minavam meus versos.

Ah, menina não fique assim como eu,

brinque zombando de tudo que ainda há tempo,

porque não terás rumo e tua bussola será

os braços cansados dos remos.

Arrebenta os cadeados dos parques fechados

E anda de bicicleta com o moleque triste

Que te observa do lado de fora da grade

não seja assim como ele, e que nunca

te vejam cavando trincheiras nos

olhos quando a saudade chega

Vá, enterre os ossos das asas

que morreram na primavera.

Endureça seu coração, marca em brasa

a veia líquida do amor e sigas em frente.

Amadureça que nem bicho e foge para as matas

mas não deixa que te cacem enquanto fruto

mantenha-se verde, porque se te colherem só valerás

prá eles o tempo de enfeitares a fruteira…

Fere o rosto do outono com o bisturi do vento

e farás com que as estações desgarrem-se de ti pouco a pouco.

Vá menina, que o tempo afogará teus bons momentos

na palidez do nunca mais. Parta agora

E de bagagem, só o sorriso da boneca de pano que

sempre será o mesmo, a cortina dançarina da sala, as

cirandas que não se romperam e o amigo que cavou

dentro dos olhos o poço da tua ausência

Nada mais, além disso, porque pesam muito as lembranças…

Vá embora logo, suma da minha frente! (antes que

Eu me arrependa e te peça pra ficar)

Porque da minha parte não haverá verso nem prosa,

não haverá dedicatória, nem dor, nem lágrima,

nem aceno, sem colo.

Prá que não fique assim tão tola como eu agora

deixando que a vida pareça um grande oceano

e eu só tenha essa gota de sal pra te ofertar

Presa nos olhos.

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Lirismo escorre pelos versos de Fátima; no exercício de entredizer meus olhos, aconselhou vida. Conselhos feminis. Fátima é doçura, deixou que eu colocasse sua poesia aqui.

(diálogo paralelo: e se o moleque triste não quiser andar de bicicleta comigo?)


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