“Toda Galinha” saiu de uma releitura do conto A Galinha, da Clarice (louca) Lispector. E “Toda Galinha” também participa do e-book do Concurso Literário Aumente um Ponto. Esse conto é o próprio reforço (involuntário) de uma ligação que me colocam, mas que pouco entendo d’onde surgiu: muitos (muitos mesmo) traçam uma parecença dos meus contos com Clarice.
Li muito pouco dela, li muito mais a Lygia (F. Telles), muito, muito mais. Os textos de Lygia: sempre de um rancor belo, d’uma indefinição entre bem e mal, daí minha paixão por. E eu sempre fiz as escreventuras correr em direção à Lygia. Clarice me parece muito mais racional e cortante feito faca torcida no meio do ventre, uma vertigem de dor de existir, de andar em corda fina pensando existência que nada vale. Tenho medo de ler Clarice e pouco a leio e justamente e justo e justamente me reportam parecença com ela. E nestas horas é dífícil conciliar que somos o que escrevemos. Um assumido lado Lispector (racional e cortante feito faca torcida no meio do ventre, uma vertigem de dor de), aí, abaixo.
Um retorno (não perfeito, mas um retorno).
Toda Galinha
Muitas vezes chamavam-na galinha. Ela acordou com o despertador apitando estrondosamente e levantou-se com vagar da cama; eram cinco horas da tarde. Não se comoveu, não duelou.
Depois de um banho leve, passeou com lentidão pelo apartamento pequeno e atulhado, nua em sua calma. Retirou a lingerie do varal, pôs uma música melancólica no rádio da sala e sentou-se, molemente, em frente à penteadeira do quarto. Observou pelo espelho, sem crítica e sem amor, seus seios enormes e pendurados. Não queria, não se debatia nada, não se debatia tudo.
Acomodou melhor a bunda nua na cadeira. Movimentos lentos transmutaram seu rosto, escureceram fortemente o contorno dos olhos, esverdearam (um verde escuro, escuro) as pálpebras, cobriram o rosto de pó e blush e tingiram a boca de um vermelho profundo de vulgaridade – e também de morte, que ela não via; e se ela imaginava, ignorava sem ostentação.
Trabalhou: engoliu porras. riu das outras. o cu ardeu. cuspiu chicletes. vomitou xingos. retocou maquiagens. fingiu sorrisos. fabricou bucetas. bebeu águas. despencou carinhos. estapeou vadias. vadiou-se. passou batons. enfraqueceu famílias. esfregou carros. gritou (no chão) a janta. foi fodida por mulheres. esmigalhou baratas. chutou bichas. odiou. esfolou vida no chão. sangrou asfalto. morreu. tragou nadas. baforou gargalhadas. recebeu dinheiros. cuspiu escárnios. sentou em picas. tomou cervejas. correu.
Assim que chegou ao apartamento, não dormiu imediatamente. Com cuidado (lentamente), retirou a roupa desconfortável e andou pela casa, nua (em sua calma). Pôs uma música animada para tocar. Sentou-se na penteadeira e, vagarosamente, (quase sugerindo amor por aquele rosto) foi retirando a maquiagem. Não sorria, não chorava. Fuga não figurava dentre a sua mornidade. Sonhos, cansara-os de escarrar no próprio espelho – agora era uma galinha, mas não se sabia galinha. Era lânguida em sua ignorância – de si mesma. Só lhe faltava penas de verdade e um bico mais afiado e amarelo, no entanto, os olhos eram de galinha, olhos redondos, piscando para todos os lados, castanhos e redondos sem querer compreender o mundo, só piscando, piscando, enquanto a cabeça se move ininterruptamente, atrás de milho e de água, só.
Leu gibi enquanto fazia cocô. Tomou um banho demorado, lavou os cabelos baços e loiros, cantou no chuveiro. Andou nua, toda calma, toda galinha, pelo apartamento. Era uma galinha, se de sua garganta escapasse um cócóricó, não seria estranho. Galinha, pois, não debatia, não duelava – discurso de futuro não lhe fazia sentido. A idéia de fuga coisa de pintinho sorridente e imaturo. Não se debatia nada, não se mastigava tudo. Não queria e não desqueria. Quando apalpavam-na, ela mesma não se sabia gorda ou magra.
Era galinha de domingo, era calma. Galinha de domingo cata milho e não sabe que está sendo preparada para o almoço; não sabe o que é futuro. Não se sabia nem galinha, não se sabia domingo. Lia revista, pintava a boca de vermelho vida, o mesmo vermelho morte. Mas não se debatia, não via no espelho os olhos castanhos e redondos de galinha. Dormia calmamente, dormia galinha, vivia galinha, toda galinha.
Mais uma vez, acordou com o despertador tocando, às cinco da tarde. Maquiou-se com vagar, música lenta na sala, lingerie velha e de renda preta ali, jogada na cama. Calma de galinha, penas (falsas) pretas de renda de galinha, foi trabalhar.
Trabalhou: abriu-se pica. riu asfalto. gritou baratas. chorou risos. matou bucetas. bebeu dentaduras. transou carros. engoliu dinheiros. lambeu cigarros. estapeou cervejas. cheirou bichas. meteu mortes. penteou batons. riu. lavou porras. cagou vadias. mijou famílias. morreu. não sentiu dor. pagou sua putice. sentou em paus e barrigas.
Novamente, às primeiras horas do dia voltou. Voltou devagar para o apartamento, andou lânguida em sua calma de galinha. Olhou para o calendário e: assustou-se!
Correu farmácia. matou manhã. fez xixi em copinho. chorou. foi genuína. desesperou-se. chorou. chorou. descabelou-se. viu seus olhos castanhos no espelho. rosto borrado. chorou. desenfreio. fremiu horrores: gravidíssima, gravidíssima.
Olhou para seus olhos castanhos, através do espelho, e não viu galinha. Foi engolfada e linchada pela idéia de futuro. Quebrou-se ao meio ali, no apartamento entulhado. Dobrou-se agarrando o ventre com força, ajoelhou no chão, da garganta escapava (involuntariamente) ganidos desarticulados de desespero. Sentiu a vertigem de um certo medo, vertigem talvez de necessidade de proteger aquele útero que inchava. Chorou desenfreada, atordoada com a ausência da calma galinácea – de toda galinha.
Sentia as entranhas torcidas e às vezes inspirava fundo – em dúvida se havia se esquecido de respirar. Chorou pelo filho. Imaginou seus olhos castanhos no rosto de uma criança, sua criança. Mas os cabelos seriam de quem? E a boca e o lóbulo da orelha, de quem? Era júnior de quem, aquele seu útero que inchava, inchava e, assim, inchado, lhe inspirava medo? Desenfreou-se.
Debateu-se toda pelo apartamento, cuspiu toda a galinha. Abrupto soube-se galinha, toda galinha e odiou isso. Trouxe todo o apartamento abaixo, quebrou móveis, odiando os domingos, odiando todas as porras, as femininas e as masculinas. Destruiu o apartamento e distribuiu suas entranhas pelo móveis que quebrava junto ao chão. Desesperada – relembrando, saudosa, quando era (momentos atrás) toda galinha e, com suas penas (falsas pretas rendas) e com seu bico (vermelho sangue vida baton de morte) a idéia de futuro era coisa de pintinho imaturo.
Passou dois meses sem que se putasse. tentando amigos. chorando frustrações. fazendo currículos. fugindo cafetão. batendo às portas. ligando mãe. comprando largos vestidos. comprando roupinhas (com laçarotes, babados) de bebê. tentou, tentou de verdade.
Acordou em um sábado de manhã. Passeou dignamente pela rua, pelo parque, lânguida (não por ser toda galinha, mas por matar a galinha assim que se sentiu ovo, toda ovo). Ia ser mãe e caminhava devagar pela rua, exibindo o útero inchado – usufruindo da dignidade e do sabor de futuro que a barriga lhe trazia. Era quase ridícula, ao exibir silenciosamente, a barriga pouco crescida. Tinha de usufruir, furiosamente, disso. Último passeio.
Entrou na farmácia, pagou (escusamente) o remédio, com o dinheiro emprestado pela a colega – pois não tinha dinheiro nem para o aluguel, não tinha dinheiro nem para a comida do mês. Voltou para a casa, caminhando digníssima, orgulhosa do júnior desconhecido que carregava no útero. Entrou no edifício vagarosamente, para não chamar a atenção da cobradora do aluguel (azeda em sua perseguição pelo dinheiro) que morava no andar de baixo.
Ela entrou no apartamento com sinais de cansaço. Sentou no sofá velho e pôs-se a passear uma das mãos distraidamente pelo estofado. Com a boca inexpressiva e o olhar vagando pelo nada, tentou (com sofreguidão muda) se lembrar do gosto de domingo, do gosto de calma de galinha de domingo. Não queria mais ser bicho ignorante de idéia de futuro, não queria.
Era final da tarde. Vestiu o pijama, retirou vagarosamente a maquiagem leve (maquiagem de mãe) do rosto. Sentou-se na cama e, como indicado (escusamente) pelo farmacêutico, tomou dois compridos; pousou o copo de água na cômoda e inseriu mais dois comprimidos (o mais fundo que pode) dentro da vagina.
Com lentidão, abriu a primeira gaveta da cômoda e pegou a tesoura afiada. Ao seu lado, sobre a cama, estavam mimosamente dobrados seus vestidos de gestante e o enxoval mal começado do bebê. Com falso estoicismo, pôs-se a picotar todos estes suaves tecidos, sistematica e vagarosamente. E assim esperou, silenciosamente, a dor (no útero).
Sim!!! Você tem um “Q” de Clarice Lispector!!! (acho que já te disse isto antes…rs)
Quanto ao texto, acho que diria assim: dramático, realístico, intenso, um pouco deprimente talvez…
é. eu mesma acho que aquela que escreveu exagerou um pouco.
(obs.: é, sim, sim, eu sei. referi-me como aquela)
:}
Bons textos chuchu!
Mas não entendi sua volta, tirando o texto sobre a parecença, que não tinha lido, os demais foram feitos há um bom tempo, o da Galinha -talvez a primeira vez no seu blog- já havia lido neste concuros aumente um ponto, ano passado, se não me engano. Estou certo?
De qualquer forma parabéns, sua volta está sendo esperançosamente aguardada.
=*
espertinho.
:P
texto novo. agora. aí.
Pois é, e quem nunca foi galinha, que pegue a mesma tesoura e enfie esta na vagina, pra picotar os comprimidos !!!
Bom texto, o resultado de um poema árcade com a dor da vida, mal batidos num liquidificador sujo…
Bjos !!!
uauuuu!!!!!! demais minha querida poeta!!!!!!