
O sol ia alto. Margarida estava dobrada sobre o grande pilão, o suor molhando o rosto, molhando a roupa, molhando os cabelos mal presos. Socava a massa, farinhando-a. Ela parecia concentrada no serviço; mas seus lábios se contraíram com força, com brabeza, quando viu (de relance) sua filha Rubi caminhando para o varal de roupas. A moça recolhia a saia que costumava usar pra sair. Margarida aplicou mais força sobre a massa, descontando a frustração nos golpes rítmicos.
- Então, você vai lá? – ela perguntou à moça, sem parar de macerar a massa.
Sua filha confirmou com um aceno de cabeça, enquanto desprendia a saia do varal. Rubi adentrou com a cabeça baixa dentro de casa, apalpando a saia, pra conferir se estava totalmente seca. Margarida fingia não descolar os olhos do pilão. Quando Rubi sumiu porta adentro, a velha parou de socar a massa e, com o rosto torcido por leve raiva-amargura, espalmou a mão no meio do tórax, massageando (desgostosa) o peito.
Em verdade, sua filha não se chamava Rubi. O nome de sua menina era Sandra. Sua filha única, filha de sua velhice, viera somente pra dar surpresas. Sandra nascera toda castanha: pele castanha, cabelo castanho, olhos castanhos. Quando com três meses, aquele conjunto de peles (aquela rosto pequeno de joelho) finalmente começou a parecer um pingo de gente revelara cabelos vermelhos (surpresa). A pele continuava castanha, entretanto, os cabelos se tornaram ruivos como os da avó. E, conforme cresceu o bebê, casualmente, notaram que o castanho dos olhos de Sandra tornaram-se um tanto claros, um tanto caramelados, um tanto furta-cor. A menina é um rubi, o médico gracejara.
Restara apenas que: pra tudo e pra todos [pro coraçãodamãe-que-palpita-nojento-de-tanta-preocupração] sua filha era Rubi, menina vermelha. A filha que lhe acontecera depois de velha, uma menina quase cega, mas uma menina de olhos ruivos. Era ruiva a sua Rubi.
[continua]
Estou aguardando a continuação da estória….rs