
Só depois que percebi que, em verdade, o desta tarde era ele. Esse mesmo, que me aparecera em Salvador, sentado sobre as pedras lisas e quentes do Pelourinho (paredes coloridas, coloridas, coloridas). Lá em Salvador viera já com os olhos verdes, porém manco: fora essa a Primeira Vinda. Nesta tarde, ele veio novamente com olhos verdes (embora fossem outros os trejeitos e sorrisos) e novamente viera persuasivo. E esta foi apenas a Segunda, daí a certeza de que, ainda que inteira, eu já esteja destruída (a pele lisa e saudável escondendo as entranhas, que vêm quebrando feito blocos de pó).
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Ele estava ligeiramente bêbado. Plena manhã e ligeiramente bêbado. Africano, embora com a pele de um marrom demasiado claro, muito claro claro e claro e os olhos (tinha uma cicatriz sobre uma das pálpebras pesadas) de um verde sólido, inteiriço. Às vezes flagrava uma espécie de diversão nos seus olhos, uma diversão malvada. Teve sempre brincadeiras de uma delicadeza bruta.
Talvez ventasse. Provavelmente ventava, pois era um dia preferido. Meus dias preferidos: sol com vento. Ao atravessar a porta: uma sala sem paredes e sem teto; colunas de cimento e vigas de madeira subindo ao céu. A luminosidade do céu azul-perfeito estourando feito arma em meu rosto. O vento agitando minha blusa, agitando as folhas de sulfite que eu carregava na mão. Tenho medo (ou susto) de altura: invariavelmente, sinto náuseas. Medo.
Ele seguiu até a beira da sala, que sem paredes, era apenas um pequeno precipício urbano, lá embaixo uma perua estacionada, o asfalto sujo de cimento, ao redor os eucaliptos agitados, balançando com certa fúria e a luminosidade ferindo nossos olhos de azul-céu (perfeito) e uma confusão de madeira, cimentas, colunas em construção, eucalipitos. Ele seguiu até a beira da sala-precipício, parou ali e ficou a olhar pra baixo, as mãos nos bolsos da calça. Ficou de costas pra mim. Enquanto eu, agitada pelo vento, me dividia entre: ou morrer de amor (pelo céu azul e o vento, dia preferido) ou matar por precaução o homem à minha frente. Seria fácil, ninguém veria: era só empurrá-lo. Algo em mim morria, morria, morria ao vê-lo parado, à beira do precipício, charmoso ao me cultuar como linda, mesmo não me dizendo linda, mesmo pouco ligando pra mim.
Não sei bem se antes de encontrá-lo ou a um passo da minha fuga: perdidos em algum corredor, ele pegou meu pulso e o virou pra cima. Nada disse: virou meu pulso pra cima e sorriu (olhar malvado carinhoso). Nada tinha dos chifres ou pés de bodes e eu acho que deveira ter, assim teria evitado confusões.
Súbito, entramos em alguma sala de aula proibida, ainda em construção. Não havia teto nem paredes, apenas o chão da sala de aula de um primeiro andar, o solo 5m abaixo. Precipício.
Me divertem brincadeiras com meu medo de morte. Medo de escada, medo de atropelamento, susto de altura, medo de beiradas precipícios, medo de trovões, medo de solidões. Empurra-me pela escada, empurra-me; empurra-me que, embora verdadeiramente apavorada (é preciso atentar às palavras: verdadeiramente apavorada), eu rirei. Frente aos meus medos o desespero duela com o riso. Divertem-me brincadeiras de morte.
Ele estava de costas. Vê-lo ali, parado a beira do pequeno precipício, bonito, fazia algo agonizar (de bocado em bocado) dentro de mim. Ou morria de amor pelo sol cegante e o azul-perfeito ou devia matá-lo,só pra garantir minha sobrevivência. Ele parado de costas, charmoso: e virou apenas o rosto, pra me observar, assim, de lado mesmo. Olhos grandes e verdes de uma solidez malvada. Tinha sotaque de quem tem como língua materna o inglês; disse assim:
- Quer ser minha garota? Hem? – falou delicamente, embora pouco conseguisse disfarçar uma brutalidade de sentimento de posse.
- Quer ser minha garota? Hem?- o vento agitando-nos. Estreitei os olhos, silenciei. Sorri malvadamente também, mas nada disse.
- Você é minha garota? Sabia? – sim, sim. Eu sabia e morria por dentro. Morria. Ligeiramente bêbado, ele balouçava na beira do abismo. Sorria carinhoso e bonito (tão bonito que algo dentro de mim morria; quanto mais observava-o eu morria, morria por dentro, morria aos bocados):
- Minha garota, hem?
Passei a rir como quem dissesse: não, não sou sua. Ele riu também embora sorriso algum podia esconder o melindre de seus olhos, a vilania de sua querência.
Veio meio brincando, meio correndo e se postou atrás mim. Segurou-me pelos ombros delicadamente e impelimiu-me pra frente, pra beira do abismo. Paramos na beirada e ele cantarolava, brincando, murmurando junto a minha nuca:
- Vamos nos jogar daqui, hem? Hem?
Bruta delicadeza. Brincadeiras de morte. Ri, desvencilhei-me. Pilherei:
- Já passei da idade de tentar me matar. – ele adorou, riu com gosto. Balançava a cabeça, rindo, como se inconformado.
Eu flagrei, vez em quando, um olhar verde-limão-sólido trigueiro (avaliativo e melindroso) sobre mim. Talvez, nos primeiros momentos, quando nos conhecemos e nos abstivemos de falar nossos nomes. Quando eu o flagrava, ele sorria como se pudesse suavizar seu maquiavelismo – ou talvez estivesse exibindo-o, no primeiro movimento de sedução.
Fosse maior o tempo, fosse maior e seria o início do fim. Meia hora da minha vida que gastei com ele e fora suficiente: cumplicizamos pequenas malvadezas com os outros, esbarramo-nos as mãos, rimos, discutimos o mundo e Deus e, explicitamente, mas sem palavras, cogitamos matar um ao outro (por sobrevivência ou ciúmes, nem sei). Seria mais fácil, seria tudo mais fácil e claro e simples e eu não titubearia tanto se ele ostentasse chifres vermelhos e fumegantes, mas já esta era a Segunda Vinda e ele tenta evitar os clichês.
Dado momento, não sei se antes ou depois de ambos terem (secretamente) cogitado o assassinato um do outro, ele argumentava, com voz pausada de quem explica a uma criança, os olhos verdes e duros contrastando com a rutilância do céu anil: “Você é minha garota. Ficaríamos ricos. Você é inteligente. Eu sou inteligente. Você é bonita. Eu sou bonito. Preciso de uma mulher como você. Seríamos ricos”. Nós contra todos.
Instanto-me à beira do abismo.
_ quer ser minha garota? – vê-lo me matava por dentro. Assim, lindo, eu morria aos bocados. Morria morria morria. Deveria tê-lo empurrado, quem veria?
E se ele me atirasse lá de cima seria uma morte justa, pois em vê-lo eu já morria, morria aos bocados, aos bocados, aqui dentro. Observá-lo charmoso e eu morria aos bocados, morria ao bocado de doce. Doçura na minha morte. Conforta-me: se ele me atirasse dali com certeza ele choraria com sinceridade a perda de mim. Porque é próprio dele. Porque isso é próprio dele. Reconheci-o.
oOo
Só depois que despistei-o foi que o reconheci. Deveria ter atentado aos olhos verdes. Afora a sedução velada, a solidez dos olhos verdes foi a única coisa que ele se permitiu repetir nesta Vinda. Brincadeiras de morte. Ficar com ele, quedar junto a ele seria o mesmo que morrer. Afundar-me em tudo que me destruiria, em tudo ilícito, em tudo tranhas de degradação e, exatamente afundada assim: ser feliz. Ele foi muito mais persuasivo nesta Vinda. Muito mais. Mesmo aqui, inteira e lúcida, já me sei perdida e morta, pois na Terceira Vinda, obviamente, ele virá indiscutivelmente (desesperadamente) irresistível. É simples: já estou morta.
(julho/2008)