(foda-se)
Não te ensinou a bibliotecária? As numerações dos livros correspondem a temas, assuntos. Não te ensinou a bibliotecária?
Eu tenho cá um drama, que feito linha de lã de carne, se estende verticalmente dentro de mim: me prumando e desprumando. Quando olho no espelho, cônscia de que vou morrer, de que todos que conheço vão morrer, que o nosso tempo no mundo se esvai e nós: pedaço de carne apodrecendo dentro da caixinha de madeira (a-po-dre-cen-do). Não te ensinou a bibliotecária? A numeração é na ordem das centenas, a primeira centena é da filosofia e uns afins aí; não lhe ensinou a bibliotecária?
Tenho um problema e é feito uma linha de lã de carne (minha carne): as disposições do exterior determinam meu interior. E esse é meu problema número 2. Não estou falando de exterior enquanto cena de novela que determina meu interior, cena tão linda que me faz chorar. Não estou falando disso. Não. Não te ensinou a bibliotecária? Freqüento a biblioteca do IFCH há seis anos, ando sempre pelos mesmos corredores. A disposição das coisas no espaço, as luzes que o densificam, a força de amplidões, a vista do mar, a cachoeira de leite de luar sobre o fundo negro-infinitude do céu desestruturam minha corda de lã, como se ao invés de vibrar à minha volição, vibrasse por. Muitas vezes tenho medo.
Tenho um drama que é feito linha de lã de carne, tensionada verticalmente, dentro de mim.
Os corredores da biblioteca são organizados de acordo com os assuntos. Deveria ter te ensinado a bibliotecária. (Gosto quando ele segura, com força, meu pulso e olhos nos olhos pergunta, sardônico: quer ou não quer?). Tenho um problema: a corda que me mantém tesa, equilibrada, não me obedece. Sob maldição materna: só sou feliz quando o sol irradia possibilidades. Quando o sol deita luz sobre o chão (e as coisas) o mundo se faz vasto. Não te ensinou? Não é como um sentimento de boa menina que gosta de dias de sol e rosas desabrochando no canteiro e passarinhos cantando. As rosas: prefiro-as deflagradas, murchando, rubro-negras (a-po-dre-cen-do) no quarto, sobre o livro jogado no canto. A bibliotecária deveria ter te contado sobre as numerações dos livros.
Há anos freqüento a biblioteca do IFCH. E, por alguma razão, naquele dia uma tristeza azul se armou dentro de mim. Uma tristeza azul e silenciosa e no meio dela a corda de lã de carne, tesa, reta.
Naquele dia, pela primeira vez tinha de procurar livros sobre políticas públicas e, não te ensinou a bibliotecária? Os corredores são organizados por assuntos dos livros. E os corredores dos meus dias que sempre freqüentei são sombrios. Talvez daí que ir até lá parecia sempre um retorno dentro de mim, lábios colados, olhos baixos, procurando livros, dentro e fora de mim. Corredores de meus dias.
Sou tátil (e esse é meu problema nº 47): enquanto a tristeza azul se mantinha quieta e devastadora dentro de mim, eu fui percorrendo a estante de numeração 310 e percorria olhando sem ver os livros, correndo os dedos (sou tátil) por suas lombadas. Quieta na sombriedade. Eu tenho um problema, eu sou o espaço que estou. Há uma janela enorme no final do corredor dos 310 (políticas públicas, não te ensinou a bibliotecária?) e ela fica voltada pra oeste.
Dedos percorrendo, tristeza avalanche e azul e quieta dentro de mim. Levantei de abrupto o rosto: pouco a pouco o corredor dos 310 fica cheio de um bloco sólido-mel-laranja de sol. Só este corredor assim: laranja. O sol laranja, forte: morno no seu envolver, oeste no seu envolver. O Sol. Do fundo da minha tristeza azul não pude refrear o murmúrio: os que pesquisam políticas públicas são mais felizes.
E aí, Fernanda. Belezinha?
Contra a minha vontade, esperei chegar as férias para poder revolver aqueles emails em que coloquei uma estrelinha e joguei na bagunça da minha caixa de entrada. Eis o motivo pelo qual estou mandando este comentário agora.
Gostei muito, muito mesmo do blog. E só. Não vou bancar o crítico e sair comentando, apesar da vontade de rasgar elogio. Sua letra não combina com um comentário cartesiano, domesticador. Não rola, né?
Bejo, continua escrevendo.
PS: Será que você sabe que raio de Arthur é esse?
Arhtur!
\o/