Fora amaldiçoada pela própria mãe. Por outro lado, há alguns anos atrás se tornara princesa. Fora amaldiçoada: dias de sol, daqueles com gosto de sábado. A mãe rogara a praga na infância: ela só poderia existir em dias com sol. Gosto do ar com sol que envolve e volteia sobre a pele, que faz volver os olhos para copas de árvores, que faz volver os olhos pra topos de prédios brancos-salmões-antenas-azuis-parabólicas-raios-claros, os olhos: sol e vento. E sorrir; quando sol com vento, sorrir, calma, plácida. Quando ela mais feliz: sol e vento.
Daí que ela, amaldiçoada pela mãe, necessitava de sol pra existir.
Mas um dia se tornara princesa. Um dia, de repente, eu me tornara princesa. Futura rainha de um povo sem olhos, órbitas vazias nas faces, burros. Coroa delicada e brilhante, vestido rosa: pesado de ornamentos, rendas, rutilante de fios de ouro. Pesado, rosa e douro.
Princesa, às vezes eu tinha quedas de maldade: despotismos, instantes de grosserias, ordens de morte, malevoaledades com entes queridos. Mal sabia.
Um dia, sendo princesa (com o pesado vestido renda rosa douro) a bruxa que havia dentro dela (arquiinimiga perdescondida por entre minhas próprias entranhas) surgira. E a bruxa trancou-a no alto da torre (na casa da esquina, do lado bar do Maneco). Os aposentos eram labirínticos; poucos tinham janela. As janelas: pequenos buracos arredondados, a metros de altura. Nas primeiras semanas ela gritara desesperadamente; desvairando-se em tentativas pra fugir dali. Depois, resignou-se. A torre era sombria e, como precisava de sol pra ser feliz, corria risco de morte.
À noite, ela dormia junto à janela leste. À espera. A cada momento sem sol o aumento exponencial da agonia.
A torre: salas pútridas, corredores tortuosos e ela arrastando meu pesado vestido pelo chão grosso de bolor. Um dia eu já não tinha forças para, a cada hora, me arrastar por entre corredores tortuosos. Até que uma vez, caída no chão, ela não teve forças pra procurar a sala; aquela da janela do sol das 11 horas.
E, ao meio-dia, o sol estava a pino (estourando), sobre o alto da torre: todas as janelas eram apenas portais luscos-fuscos de agonia. Perdida dentro do labirinto, ao meio-dia. Numa sombridão que vinha de dentro de si, densificando tudo à sua volta. Ali, entre as paredes, começou as primeiras contorções, a boca escancarada ridiculamente, desesperada, o pescoço tenso, o tronco estribuchando. Melhor seria se os olhos dela rodassem pelas órbitas, afundando-a em tonturas; mas os olhos persistiam em ficar atentos, vidrados no verde-bolorento-roxo das pedras da torre. Sol nenhum. Os primeiros momentos em morimbunda.
Súbito, surgiu o príncipe. Trazia na mão uma flor de sol. Poderia salvá-la.
Flor de pétalas grandes, fluídas ao se movimentarem ao vento (mesmo ali, sem vento nenhum). Flor densa feito chumbo, preta como qual todas as cores engole. Flor perfeita de sol: nojenta e fluída. Perfeita em todas as texturas. Cheiro de tecido de algodão secado ao sol. Balançava ao sabor de vento nenhum.
— Dá-me. – ela exigiu a flor.
O amor entre eles sempre fora estranho. Como não soubessem o que fazer com esse amor, fingiam não se gostar e se divertiam com folguedos de contrariar um ao outro.
— Dá-me. – o vestido rosa, pesado e imundo. A garganta tensa de agonia.
— Dá-me! – ela gritava.
Ele riu e, achando graça em contrariar-lhe, comeu toda a flor, lentamente. E a bruxa que vivia dentro dela morreu. E foi assim que ela se tornou uma princesa absoluta, arrogante, má, sem limites.

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