Noite. O estacionamento muito escuro. Parou o carro e olhou-se pelo retrovisor. Ela esqueceu de pentear o cabelo. Mas não fazia tanta diferença. O cabelo liso e pesado, bagunçado desse jeito, ia parecer só charme – ponderou. E olhando os próprios olhos orientais (irritados e sem maquiagem) murmurou: charme de merda.
Seria justo tirar da boca aquele batom roxo (seu preferido), que passara às pressas. Mas desistiu da ideia.
Subitamente, se apressou: jogou os óculos e as chaves de casa de qualquer jeito dentro da bolsa e saiu com rapidez do carro. Charme de merda.
Entrou no bar.
* * *
Estavam em nove no bar. Ela sorriu da piada que o Alexandre contou, mas virou delicadamente o rosto. Ao menos sorria.
Por todo o tempo, escorregava casualmente os dedos pelo copo. E sorria, sempre suave.
Estavam em nove pessoas, não conseguiram mesa. Estavam amontoados ali, junto ao balcão. Ela, sentada na banqueta (sempre sorrindo, simpática e delicada) tinha uma visão privilegiada de Marta, no meio da roda de amigos.
Marta insegura, tapada e mal resolvida. Marta que se pensava mulher interessante, só porque se fazia sexualmente liberal. A bartender era a Leila. Leila, A Estranha (cochichou maldosamente pra Roberta). Normalmente, tinha dó de Marta. Mas, nesse dia, sentada junto ao balcão, afundada na meia-escuridão, Marta parecia lhe reluzir. (esfuziante em sua vulgaridade de mulher moderna). Marta ao rir e conversar com todos e alisar constantemente o cabelo (charme de merda) reluzia de idiotice e falta de noção.
Passou com urgência a mão no próprio cabelo bagunçado; ainda desejosa de arrancar o batom. Sorria suave pra esconder seus bufos de impaciência. E desviava o rosto. Leila, sobrinha da prima de segundo grau do tio da cunhada do Edvaldo. Magrela e feia de doer: Leila, sempre sorrindo, atenciosa.
Queria tirar o batom. Escorregando os dedos lentamente pelo copo, ponderou que se ficasse bêbada acabaria dando pro sujo do Alexandre. E se ficasse bêbada acabaria (totalmente absurda e etílica e cambaleante) levando Marta para algum canto.
Se ficasse bêbada, tinha certeza: acabaria com a fala engrolada, tentando explicar calmamente à Marta Que Porra Marta pára de oferecer essa bunda pra todo mundo. Pára Marta! Você ‘tá fazendo a droga toda errada. Não vê, Marta? Não vê? Caralho Marta, você não vê? Nenhum deles (os que te comeram ou não) te respeitam. Eles nem fingem, Marta, nem fingem que te dão a porra d’uma atenção. Pára de oferecer essa bunda feia pra todo mundo! Mas que caralho, Marta! Não vê? (a voz engrolada, os olhos dançando de bêbada). Você, pra eles, não é uma liberal, é só uma vagabunda fácil e suja com diploma de economista. Marta, eles são uns machistas tapados e sujos. Marta? (com voz de bêbada triste diria) Marta? Vai tomar no cu, Marta! Não vê?! Não vê?! (chacoalhando Marta pelo braço; Marta chorando; ela mesma chorando, bêbada, derrubando a vodka do copo na roupa; Alexandre mandando-a soltar Marta; Alexandre querendo levá-la embora pra comê-la, ela também como Marta: vagabunda, fácil e suja).
Ela sorri da terceira piada que Luciano conta. Pondera internamente que não deve ficar bêbada. Ao mesmo tempo, escuta (perfeitamente atenciosa) Sandra contar sobre a gravidez da Luana. Sorri suavemente nas partes bonitas ou engraçadas da história: sempre simpática em sua perfeita delicadeza oriental. O cabelo bagunçado e os olhos descuidadamente (mas eternamente) pousados no próprio copo. Se ficasse bêbada, pensa consigo mesma, seria um desastre. Seus dedos descem e sobem pelo copo: lentos de reflexão.
Nunca fora amiga da Marta. Às vezes, passava horas escutando as lamúrias dela, via-a apenas uma ou três vezes a cada dois meses. Alardeava a dó que tinha da Marta (a vaca insegura) para quem quisesse ouvir.
Pega o guardanapo e, discretamente, tira o batom da boca. Fora besteira ir ali. Não suporta o próprio batom. Não tem força pra um sorriso genuíno. E Marta, inocente, reluzia feito seu novo objeto de ódio na meia-escuridão.
Adriano começa uma piada de japonês, percebe a gafe e faz um cumprimento oriental para ela, à guisa de desculpa. Todos riem; ela ri, faz sinal de que tudo bem, que ele podia continuar a piada. Sandra pára a história da gravidez da Luana pra ouvir a piada de Adriano. Ela sorri enquanto desvia suavemente o rosto. A Marta ri pra uns caras, ri, se jogando, se oferecendo. E observando Marta, ela fica brava ao ter a certeza de que acabará bêbada, gritando com Marta, dando pro Alexandre. Os olhos ardem com a força de segurar um choro ridículo. Ela bebe um gole e sorri para ninguém.
Leila, A Feia, prepara alguma bebida estranha. Leila percebe o olhar dela e oferece a bebida dizendo:
— Essa é grátis.
Ela sorri, pega o copo.
— É feito do quê?
— Prova primeiro.
Mentalmente ela xinga Leila e ri (não queria a porra da droga de bebida nenhuma). Toma a tal da bebida. Engasga, tosse, cospe. Põe raiva na voz ao reclamar:
— É amargo. – Leila sempre-feia-simpática responde calmamente:
— Feito teu tempo.
(dez. 2010)
