__ Preta suja!
Ana Paula era bem maior que Maria. Ana Paula tinha oito anos, Maria tinha quatro. Maria arfava, lágrimas silentes correndo pelo rosto – tinha medo de escuro, mas Ana Paula não podia perceber, se não a deixaria presa a tarde toda.
__ Saí daí, preta suja! – Ana Paula gritou em direção ao guarda-roupa, enquanto puxava os bonitos cachos louros de sua boneca francesa – de porcelana.
O coração de Maria parou por um segundo. Esperou a outra menina gritar mais uma vez, pra ter certeza.
__ Saí! Sua pretinha fedorenta! Vai embora! Pret… - a palavra morreu pelo susto: Maria empurrou, de supetão, as portas do guarda-roupa e correu afora, sem olhar para os lados.
Ana Paula olhou para as bonecas em suas mãos – os vestidinhos rosas da cor das cortinas de seu quarto. Encrespou ligeiramente o rosto, as pálpebras descidas sobre os olhos pretos.
Lançou, com raiva, as bonecas para longe. Levantou em um pulo e saiu, também, correndo do quarto. Maria corria, mas Ana Paula alcançou Maria no meio da sala. Envolveu a pequena mão marrom na sua e puxou Maria para o lado contrário:
__ Vem. Vamos brincar.
__ Não. Não quero.
Ana Paula, feroz:
__ Preta suja! Vem brincar!!
__ Não quero! – Maria gritou alto ao tempo que se desvencilhava e corria pra cozinha, atrás da mãe.
Por um momento, Ana Paula ficou ali, no meio da sala, enrubescendo lentamente. Os braços pendidos molemente ao longo do corpo; lábios entreabertos, olhos enganadoramente mortiços (um pouco úmidos) a mirar o corredor por onde Maria sumira. O vestido amarelo, cheio de laços e babados, fazendo-a um pouco ridícula (na medida em que contrastava com um amargor pouco infantil no rosto).
__ Preta suja! Suja!!! – gritou com força; veias saltando pelo pescoço.
Ainda vermelha subiu, desesperada, as escadas, batendo os pés com força nos degraus de madeira; correndo para o outro quarto cor-de-rosa, onde dormia o bebê feio, enrugado. Estacou na porta: o bebê feio sugava o peito de sua mãe. Ana Paula montou uma cara de choro.
__ Mãaaaeee. A Maria não quer brincar comigo – a voz melosa e irritante.
Sua mãe não levantou os olhos, não fez aquela expressão imitando pesar e não estendeu os braços, chamando Ana Paula para o colo. Não fez voz de criança, não trocou – propositadamente – o ‘r’ pelo ‘l’ ao falar (“vem aqui, amolzinho…”). Não a consolou, não alisou seus cachos, não propôs brincarem de casinha, não ofereceu um bombom. Não chamou Maria de pretinha feia, não brincou de pocotó, não apertou Ana Paula com força, não sorriu, não…
__ Não vê que sua irmã ‘tá mamando, Ana Paula. Vai brincar com suas bonecas. – voz da mãe irritada.
* * *
Fitava suas bonecas, no momento, já sem braços. Ana Paula nem precisava descer pra espiar. Já sabia que o irmão da Maria deveria estar na frente de uma panela, ajudando a fazer o almoço. Cozinha abafada, com cheiro gostoso de tempero e a Mãe de Maria – suja de tomate, cheirando a alho – a ninar Maria chorona. Mãe de Maria com baita sorrizão branco, dizendo que ia dar outro pito na patroazinha, pra’quela meninona parar de judiar dos outros. E com sorrizão, devia estar, de novo, enchendo o rosto da Maria chorona com beijos, dizendo que não necessitava chorar.
Ana Paula já nem precisava descer pra espiar. A cena já gravada na mente por força da repetição.
Pegou uma boneca pelo cabelo louro e quebrou-lhe a perna. Maria. Aquela menina chorona. Ia puxar o pixaim dela até ter tufos soltos na mão – aquela chorona. Corria, sempre, chorando pra mamãe preta dela. Pretinha suja. Ana Paula era patroazinha, não precisava da pretinha suja, não é? A mãe já dissera antes, não precisava. Ia pegar a pretinha. Ia, sim.
E então, à tarde, encurralou Maria num canto do estábulo e bateu-lhe com uma vara. Bateu sem parar. Bateu, violenta, até seus cahos castanhos e sedosos desmancharem, até seu braço doer. Bateu até os vergões sangrarem pelas pernas da pretinha. E então pegou-a pelo braço, arrastou por sobre o chão de terra batida e trancou aquela Maria suja numa baia, ao canto.
E então, súbito, o mundo parou. Ana Paula com respiração ainda acelerada, parada em frente a baia e o mundo parado ao se redor. Lentamente empalidecia, os lábios perdiam a cor, arfava. E, de repente, a vara em sua mão pareceu-lhe suja, quente – jogou-a para o lado.
Ana Paula e o mundo parado, desprovido de sentido, desprovido de ação. O mundo marrom-madeira rodeando-a, cheirando a cocô de cavalo, um pateado nervoso em algum lugar. E, deu-se conta, mundo parado com Maria chorando compulsivamente do outro lado da portinhola de madeira – muralha intransponível.
Ana Paula franziu a testa – que fazer agora?
Olhos pretos de Ana Paula já marejados. Maria, preta suja, asquerosa – não devia chorar. Se perguntava, ferozmente, porquê Maria chorava. Era suja, não era? Não devia chorar, não devia!! Preta suja. Ana Paula gritou.
__Preta suja! – Maria chorou mais alto.
__ Não chora! Não chora! – gritava, já chorando também.
__ Não chora! Não chora! Não chora, preta suja! Preta! – gritava, tensa, nas pontas dos pés, os punhos cerrados, brava, irada, por que Maria não parava de chorar? Por quê?
__ Não chora!
Ana Paula murchou. Saiu correndo, desesperada, louca, para cozinha – com o coração na mão (inchado, sangrando). Ia pedir pra Mãe de Maria fazer Maria parar de chorar; pedir pra tirar Maria de lá, pois Maria tinha medo de escuro. Ia pedir, desesperada, pra Mãe de Maria pegar Maria no colo, sentar com ela sob o sol e beijar as pernas roliças de Maria até estas pararem de sangrar. Ia pedir pra Mãe de Maria fazer carinho na Maria e ia pedir pra Mãe de Maria bater na patroazinha até ela sangrar igual Maria, igualzinho Maria.
Parou em frente à Mãe de Maria, com seu coração amorfo sangrando em suas mãos. Arfava, chorava, soluçava, atropelando palavras sem, no entanto, conseguir falar.
E então: surpresa das surpresas. Mãe de Maria ainda suja de tomate, com mão cheirando a alho e o cabelo trançado comprido, comprido, sentou-se na cadeira e abriu baita sorrizão. Puxou Ana Paula para o colo e abraçou-a e disse coisas gostosas, coisas de mãe, que Ana Paula não – e jamais – compreendeu, só sentiu. Sentiu um conchego no avental amarfanhado e úmido jamais sentido no vestido de cetim azul da mãe. A aspereza da mão negra a limpar, com delicadeza infinita, as lágrimas de Ana Paula. E ria seu sorrizão branco e ninava Ana Paula e dizia coisas gostosas que a menina jamais, jamais entendeu. E – gostosura das gostosuras – Mãe de Maria beijou Ana Paula, beijou assim, gostoso e estalado; beijou bochecha branca salgada igual beijava Maria.
E então, Ana Paula apertou Mãe de Maria com força; já pensando em virar Maria chorona, pra ganhar beijo todo dia, todo dia.
Fernanda Cristina
29/05/2004

Meu Deus Fer… coisa rara me deixar sem palavras, li poucas coisas tão doces e cortantes assim. Demais!
Mari, como eu já disse, vc me honra. (: