Ária para Fernanda

Julho 6, 2008

(Maria de Fátima Prado-20/05/2006)

Ah menina, não te engane por esses desenhos nos muros, de uma criança empinando uma pipa, mas na verdade é

a pipa que empina a criança e ela nem percebe isso!

Vê aquele homem correndo verticalmente em direção ao sol,

sem conseguir conter a náusea? A vida o deixou assim;

chorando a inocência dos monstros, sentindo a cartilagem dos feridos…

Agora o chamam de louco. Idiotas! Não vêem que ele

está a fazer poesia…

Falar-te de flores? Como? Se as que plantei

nem me lembro onde para poder colhê-las?

Vê em mim essas marcas de vinho tinto?

é assim que escrevo um livro pois

roubaram me a biblioteca, caverna de palavras

puras onde minavam meus versos.

Ah, menina não fique assim como eu,

brinque zombando de tudo que ainda há tempo,

porque não terás rumo e tua bussola será

os braços cansados dos remos.

Arrebenta os cadeados dos parques fechados

E anda de bicicleta com o moleque triste

Que te observa do lado de fora da grade

não seja assim como ele, e que nunca

te vejam cavando trincheiras nos

olhos quando a saudade chega

Vá, enterre os ossos das asas

que morreram na primavera.

Endureça seu coração, marca em brasa

a veia líquida do amor e sigas em frente.

Amadureça que nem bicho e foge para as matas

mas não deixa que e cacem enquanto fruto

mantenha-se verde, porque se te colherem só valerás

prá eles o tempo de enfeitares a fruteira…

Fere  o rosto do outono com o bisturi do vento

e farás com que as estações desgarrem-se de ti pouco a pouco.

Vá menina, que o tempo afogará teus bons momentos

na palidez do nunca mais. Parta agora

E de bagagem, só o sorriso da boneca de pano que

sempre será o mesmo, a cortina dançarina da sala, as

cirandas que não se romperam e o amigo que cavou

dentro dos oljos o poço da tua ausência

Nanda mais, além disso, porque pesam muito as lembranças…

Vá embora logo, suma da minha frente! (antes que

Eu me arrependa e te peça pra ficar)

Porque da minha parte não haverá verso nem prosa,

não haverá dedicatória, nem dor, nem lágrima,

nem aceno, sem colo.

Prá que não fique assim tão tola como eu agora

deixando que a vida pareça um grande oceano

e eu só tenha essa gota de sal pra te ofertar

Presa nos olhos.

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Lirismo escorre pelos versos de Fátima; no exercício de entredizer meus olhos, aconselhou vida. Conselhos feminis. Fátima é doçura, deixou que eu colocasse sua poesia aqui.

(diálogo paralelo: e se o moleque triste não quiser andar de bicicleta comigo?)

O Alvoroço de Helena

Abril 5, 2008

 (desprumada, repliquei)

 O Alvoroço de Helena

 

Helena está com o âmago um tanto que alvoraçado. Ela atravessa a sala silenciosamente (cuida pra fazer o mínimo de barulho); pára frente à janela, espalma as mãos nos vidros e observa o céu que anuncia tempestade. Ele está do outro lado da sala, lendo coisas seriíssimas, seriíssimas (cogita Helena).

Silêncio de túmulo.

 

Ele lê, do outro lado da sala. Seriíssimo.

 

- Noite horrenda.

Ela comenta por comentar. Quase grita: Noite horrenda! Há um alvoroço silencioso no âmago de Helena.

 

Silêncio de túmulo. Ele não levanta os olhos do livro.

 

Ela espera sem se voltar pr’ele. Espera. Eternidades depois, desatento, ele lhe responde.

- Claro, claro. Noite horrenda.

 

Helena se acalma.

 

 

 

 

 

 

 

 

espelho de bolsa

Abril 2, 2008

Tia Cecília Meireles, pois que eu tinha uma estrela sobre a cabeça? Brilhava tanto que até me doía. Que beleza, luz cegante. Doía de tanto que rutilava. Um dia, Ninguém veio (é, esse mesmo) e assoprou. Sopro forte, ventania: meus cabelos quase se descolaram do crânio. Pós-vento e Pasmada, descobri que não era estrela, era uma vela. E qual, tia? Qual que eu sinto saudade da dor

Tia Cecília, pois que sei que a estrela e a vela d’alguma forma saiu de uma estrofe tua. Mas que não acho a estrofe, não acho. Fica parte da tua obra então:

Morena Pena de Amor (trechos)

1

Me chamam Morena

por ser minha cor

Mas meu nome é Pena,

Pena de Amor

6

Clara no escutar,

morena no responder

Morena pra te amar,

clara pra te perder

7

Por nascer Morena

Não tenho desgosto;

mas o amor me acena

e me vira o rosto

21

Quando uma morena chora,

Deus abre a sua janela,

e, sendo Deus, se enamora

e, sendo Deus, fica triste

de não estar mais perto dela

Velha. Sente-se velha. Aos 43 anos, indubitavelmente, velha. Agora, odeia esta casa, pois seu único amor em vida (sua mãe) já não a povoa. Morta há dois dias, sua mãe. E, subita e indubitavelmente, ela sente-se velha. Nesta noite, subita e indubitavelmente, é uma velha.

agitato_noturno-de-solidao.jpgDas portas de vidro (da casa que agora odeia) ela vê o mar. Cola as mãos nas portas de vidro, tem o rosto congestionado, e olha o mar. Faz o esforço de um murmúrio, se esforça para ao menos murmurar, mas a garganta recusa o som. Olhos franzidos, ela abraça-se (tão velha, velha) e tenta pronunciar (não tem a força de um murmúrio): mãe.

A boca faz o movimento, mas o som se recusa (tem a força de uma velha; os lábios empapados de lágrimas abertos em um “O” perfeito): mãe? mãe? Força de uma velha chorona: não consegue pronunciar. Velha chorona e odeia-se por isso.

agitato_noturno-de-solidao.jpgOlha o mar pela porta de vidro. Mar negro de noite. Ao alto, nuvens pumbleas correm desenfreadas pelo céu, loucas feito desgraças. A noite é dos mortos e daqueles aos quais só resta (só é possível) a vigília mórbida de um velório eterno. A boca torta borbulha o agitato_noturno-de-solidao.jpgmurmúrio: “Noite, Meu Deus” (à frente dela um abismo de choro compulsivo).

Lábios empapados de lágrimas, contorcidos de dor de quase-choro. Abraçada a si mesma, anda pela casa odiada. Evita fechar os olhos, pois, sob as pálpebras fechadas estão impressas imagens de violinistas sangrados e sem lábios, mórbidos. Nuvens pumbleas correm pelo céu, desenfreadas como as piores desgraças. Sente-se velha e não nota que, ao passar pelos vasos de pedra negra de sua bela sala, os lírios murcham e fedem – nojentos e mortos.

Ela crava as unhas na pele, quando envolve o pescoço com as próprias mãos. Violinistas de faces descarnadas, mar revolto e sua mãe não está ali. Unhas adentram a própria pele sem perdão algum, nenhum perdão, nenhum. Sua silhueta é efêmera dentro da casa escura. Lábios (contorcidos) afogados em lágrimas, rosto congestionado. “Noite, Meu Deus”. Os lírios fedendo horrendamente e ela não nota, pois tem desespero na voz de velha: “Que noite”, ela sussurra.

Fernanda Cristina
(23/02/07)

Agitato

Fevereiro 7, 2008

agitato 

Às vezes, surpreendo uma pieguice em Cecília e isso me põe impaciências de irritações (mas sempre pequenas). No entanto, posso eu lá desejar que ela se rasgue desacralizações, quando em verdade, parece que ela não viveu estas?

Mas, de Cecília, é cravada a verdade do que é fazer da poesia um poema. E para o bem da verdade, é preciso saber ler o poema (para que ele doa no peito, se tornando poesia). Ou, antes que saber ler, é preciso estar desarmado. Desarme-se e: pimba! O poema (a mão) de Cecília agarra com força (aperta, piedade alguma) suas entranhas de leitor e torce-as, levemente. Pois, na verdade, Cecília sabe fazer.

Conquanto, a verdade será plena se saber ler (ou, antes) estiver desarmado. Daí o conselho: deite na cama, espere os olhos se turvarem de cansaço, espere o limbo entre o sonho e a realidade; espera e põe-se a ler que: pimba! Cecília te pega.

Deitada em minha cama, depois que li Cecília, ficou difícil conciliar o sono. Fiquei menina desarmada, perdida entre as cobertas, no escuro, com a boca fechada de ataranto e sob minhas pálpebras fechadas (trêmulas) ficaram impressas silhuetas vagas de moça feita de solidões noturnas, suspiros de dor de morte, medos de marejar os olhos, muito vento, muito vento, vento a agitar tudo. A agitar-me o âmago. Fiquei moça perdida medrosa, pois Cecília sabe fazer.

Conselho sério_ leia devagar, saboreie palavras:

Agitato
(Cecília Meireles no livro Nunca Mais…)

Os violinos choram, soturnos,
dentro da noite morta e triste,
elegias vãs de Noturnos…
E nada existe… nada existe…

Sombras. A câmara apagada…
Sombras… Meu vulto é longe… ausente
Silêncio… Calma… Sonho… Nada…
Vago, leve, indecisamente…

Noite. Que noite!… Pelas bordas
das jarras negras, morrem lírios…
Chopin. Falecem pelas cordas
Trêmulas, trêmulos martírios…

Andam, no vento, aromas soltos,
saudades lentas… Alto, passa
o véu do luar nos céus revoltos,
cheios de signos de desgraça…

Dias

Dezembro 16, 2007

Prole do tempo dias hipocríticos

Tapados, mudos, dervixes descalços

Seguindo sós em filas sem mais fim

Com diademas e adornos nas mãos

Oferecem regalos para todos

Pão, reinos, astros e os céus que os sustém

E eu, em meu jardim curvo, olhava a pompa

E esquecia meus desejos matinais

Na pressa colhi ervas e maçãs

E saiu e voltou, silente, o dia

Vi tarde, em seu solene aro, o desdém

Ralph Waldo Emerson

Tabacaria (fragmento)

Setembro 16, 2007

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado na vida.)

Álvaro de Campos