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	<title>.numa dessas: literatura</title>
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		<title>.numa dessas: literatura</title>
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		<title>Ao fazer o jantar</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 19:35:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernanda Cristina</dc:creator>
				<category><![CDATA[registro compulsivo]]></category>

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		<description><![CDATA[Out./2007 [porque ainda dói] &#160; Porque, ainda fazemos a mesma quantidade de comida que temos feito há três anos atrás. E, agora, sempre sobra comida, nunca acertamos na quantidade. Cada vez que sobra comida, lembro da pessoa que, agora, falta dentro de nossa casa. Ao pegar a colher e mexer a carne na panela, assalta-me [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=numadessas.wordpress.com&amp;blog=1371769&amp;post=465&amp;subd=numadessas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<pre><em>Out./2007</em>
<em>[porque ainda dói]</em></pre>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;">Porque, ainda fazemos a mesma quantidade de comida que temos feito há três anos atrás. E, agora, sempre sobra comida, nunca acertamos na quantidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Cada vez que sobra comida, lembro da pessoa que, agora, falta dentro de nossa casa. Ao pegar a colher e mexer a carne na panela, assalta-me a lembrança dela, daquela que está ausente &#8211; pra sempre (e a palavra sempre nunca foi tão definitiva).</p>
<p style="text-align:justify;">Durante milésimos de segundos debato-me em dúvida: permito que a lembrança daquela que me falta engolfe meu corpo (meus olhos que liqüefazem, meus lábios que tremem, fracos )? Ou exorto a lembrança, fugindo da tristeza que me derrubará? Decido rápido: deixo que a lembrança me tome o corpo, que tombe meus olhos, que me tire da cozinha, que me volva no passado, que destrua a firmeza de meus lábios (que tremerão, vergonhosamente tremerão) que me lance na presença (que no agora e ao futuro será definitivamente ausência) dela.</p>
<p style="text-align:justify;">Gostava de dar-lhe a comida na boca, um dos meus momentos de vida favoritos. Ela me olhava de lado, os olhos a piscar (fazendo charme), sorria seu sorriso (que hoje me dói, que a descrevê-lo, me põe a chorar) e dizia: “Humm, papa gostoso!”: imitando fala de criança (como quando fazia comigo, na minha própria infância, ao me incitar a comer). E abria a boca para que eu lhe desse outra colherada de comida. Ou então sorria e dizia com o carinho intrínseco que tinha sua voz: “Que comida cheirosa, fia. Foi você que fez?”</p>
<p style="text-align:justify;">Retorno ao presente e a sombra de tristeza que escapa por meus olhos (e deita sobre cada coisa que vejo) empurra meu âmago pra baixo e não tenho mais vontade de comer. Provavelmente, a maior homenagem a sua ausência seria ter pegado a carne, a panela, a colher e jogado tudo lixo adentro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<br />Filed under: <a href='http://numadessas.wordpress.com/category/registro-compulsivo/'>registro compulsivo</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/numadessas.wordpress.com/465/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/numadessas.wordpress.com/465/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=numadessas.wordpress.com&amp;blog=1371769&amp;post=465&amp;subd=numadessas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Dose de Amargura</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Oct 2011 11:05:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernanda Cristina</dc:creator>
				<category><![CDATA[.contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe &#8211; alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham. No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=numadessas.wordpress.com&amp;blog=1371769&amp;post=449&amp;subd=numadessas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe &#8211; alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada. </em></p>
<p align="center">* * *</p>
<p style="text-align:justify;">Emanou descaso, a rebolar apressada, atravessando a frente da televisão e avisando-os que sairia naquela noite – sem dar-lhes tempo para discussão.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia trancou-se no quarto (sorrindo largo, com a língua entre os dentes, antecipando a noitada)  e olhou-se no espelho. Caçadora noturna da urbe, sabe-se gostosa. Corre os dedos pelos cabelos lisos e cumpridos. Tem os olhos de um castanho morno, o nariz adunco. A boca larga-lânguida sorria-lhe de volta. Apertou os seios frente aos espelhos: é gostosa, ela sabe.</p>
<p style="text-align:justify;">Ligou seu rádio, aumentou o volume do som e passou a perambular pelo quarto (escolhendo roupas, maquiagens, separando lingerie) enquanto dançava animadamente. Cantava alto, sabendo que incomodava todos na casa. Tomou banho rapidamente. Dançou, feliz, enquanto tomava banho. Márcia cantava a plenos pulmões.</p>
<p style="text-align:justify;">Perfumou-se. Adornou o quadril redondo e orgulhoso com uma calcinha minúscula. Falava com a amiga ao celular, dançando ao som da música alta e, frente ao espelho, arrumou os bicos dos seios sob a blusa branca, justa. O decote tão profundo quanto os desejos que guarda dentre as pernas. Vai caçar e é gostosa, sabe.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia desliga o celular ao escutar os passos arrastados da tia pelo corredor, provavelmente, tomando coragem para adentrar no quarto da sobrinha. Joga o celular rapidamente sobre a cama e começa a se maquiar, fingindo concentração.</p>
<p style="text-align:justify;">Enquanto sensualiza o rosto (<em>rímeis</em>, <em>batons</em>,<em> blushes</em>) a tia entrou. A velha andou pelo quarto, silenciosa, colocando uma ou outra coisa no lugar, como quem não quer nada. A tia sentou, finalmente, na cama e, muda, observou Márcia: vestida apenas com a calcinha minúscula e a blusa branca (de decote tão profundo quanto a vulgaridade necessita). Observa Márcia curvada em direção ao espelho, os cabelos escuros são uma cortina que desce pelas costas. Márcia é uma calcinha minúscula e olhos escurecidos pela maquiagem.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia observa, e sua boca fica entortada (os olhos anuviados e desgostosos) com silêncios de reprovação. Com o rosto voltado para o lado, como se tivesse medo de encarar Márcia, a tia diz baixo e devagar (a voz fraca):</p>
<p style="text-align:justify;">— Você está vulgar.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia não se dá ao trabalho de virar-se pra tia. A boca fortemente pintada sorri através do espelho. Ela avisa de volta (cínica):</p>
<p style="text-align:justify;">— Você não é minha mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia se volta pra tia enquanto escova o cabelo e acrescenta:</p>
<p style="text-align:justify;">— Irmã da mãe; e não mãe. – fingi amenizar as palavras sublinhando-as com os olhos enviesados e riso na voz. Dá as costas à tia; alarga o sorriso e torna a passar o rímel nos cílios.</p>
<p style="text-align:justify;">A boca velha da tia entorta-se ainda mais. A tia sai do quarto, quieta, sempre engolindo, sozinha, brigas de tempestades. Márcia liga para amiga, combina horários e locais enquanto escolhe a sandália: gargalha comentários, riem do chefe, aumenta o volume da música para a amiga ouvir. É gostosa, sabe.</p>
<p style="text-align:justify;">Desliga o celular, veste calça jeans justíssima. Aumenta música: frente ao espelho testa um sorriso trocista, testa um olhar sexy, um rosto sério, um franzir engraçadinho do nariz e confere sua gostosura: observa o movimento dos seios e dos quadris ao descer, dançando, até o chão.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia tenta sair despercebida. A tia, da cozinha, chama-a para que tome a dose noturna dos remédios. Márcia pára à porta do aposento: a tia, mulher insossa, lava a louça; e o tio, homem trabalhador, janta a comida carinhosa da esposa, merecida após um dia árduo de labor. Mesmo que o rímel o baton o blush a base a sombra estejam intactos, Márcia sente a maquiagem escorrer devagar e espessa de inflexão. Mesmo que intacta, sente a maquiagem escorrer quando, ao observar essa sua família, tenta se lembrar se fora ela (aos quatro anos de idade) ou os tios (quando abriram os braços e a casa) que estipularam que nunca os chamaria de pai e mãe. Dose de amargura.</p>
<p style="text-align:justify;">A tia, um horror de solicitude e carinho, já havia preparado o copo d&#8217;água com os comprimidos dispostos ao lado. Márcia senta ao lado do tio, que está a jantar, e toma seus remédios &#8211; amargos, amargos. Ela e o tio conversam animadamente sobre a noitada que Márcia terá. A tia avisa baixinho, voz de sempre quase medo: você está vulgar. Márcia (exasperada com a velha) diz que está na moda, diz sorrindo que  atia não sabe o que está na moda. O tio ri e, virando-se para a sobrinha, avisa-a: você está bonita, não ligue para a tia.</p>
<p style="text-align:justify;">Tio coloca uma mão na coxa de Márcia, do lado interno da coxa. A mão sobe, lenta, sôfrega, em direção ao sexo e desce: uma, três vezes.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia sorri para a tia. Sorriso salgado de vontade de chorar, porém duro e cínico &#8211; feito metal entrando na carne. Márcia tem vontade de sussurrar com troça: vê isso, sua velha? Vê? A tia, feita de medos e carinhos, desvia o rosto &#8211; engolindo tempestades.</p>
<p style="text-align:justify;">Márcia levanta-se, com pressa. Márcia sai da cozinha, barulho da sandália ressoando pelo silêncio que era o assoalho. Márcia sente nojo dos seus seios altos, da calça que desvela sua bunda, dos saltos finos e brancos da sandália. Tem vontade de vomitar os remédios que entopem seu estômago.</p>
<p style="text-align:center;" align="center">* * *</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Abre a porta de casa, vê as amigas esperando do lado de fora do carro. Rebolando falsos estoicismos, ri e cumprimenta as amigas de longe &#8211; alegre, alegre. Ao caminhar até elas, pára, canta uma música e desce rebolando até o chão. Gargalham.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>No carro, confere no espelho a beleza de seu rosto, maquiado perfeitamente, enquanto riem e antecipam a noitada. </em></p>
<br />Filed under: <a href='http://numadessas.wordpress.com/category/contos/'>.contos</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/numadessas.wordpress.com/449/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/numadessas.wordpress.com/449/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=numadessas.wordpress.com&amp;blog=1371769&amp;post=449&amp;subd=numadessas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">De Paula</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>Ana Paula, Maria e Mãe de Maria</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Oct 2011 23:43:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernanda Cristina</dc:creator>
				<category><![CDATA[.contos]]></category>

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		<description><![CDATA[__ Preta suja! Ana Paula era bem maior que Maria. Ana Paula tinha oito anos, Maria tinha quatro. Maria arfava, lágrimas silentes correndo pelo rosto – tinha medo de escuro, mas Ana Paula não podia perceber, se não a deixaria presa a tarde toda. __ Saí daí, preta suja! – Ana Paula gritou em direção [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=numadessas.wordpress.com&amp;blog=1371769&amp;post=440&amp;subd=numadessas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">__ Preta suja!</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula era bem maior que Maria. Ana Paula tinha oito anos, Maria tinha quatro. Maria arfava, lágrimas silentes correndo pelo rosto – tinha medo de escuro, mas Ana Paula não podia perceber, se não a deixaria presa a tarde toda.</p>
<p style="text-align:justify;">__ Saí daí, preta suja! – Ana Paula gritou em direção ao guarda-roupa, enquanto puxava os bonitos cachos louros de sua boneca francesa – de porcelana.</p>
<p style="text-align:justify;">O coração de Maria parou por um segundo. Esperou a outra menina gritar mais uma vez, pra ter certeza.</p>
<p style="text-align:justify;">__ Saí! Sua pretinha fedorenta! Vai embora! Pret&#8230; -  a palavra morreu pelo susto: Maria empurrou, de supetão, as portas do guarda-roupa e correu afora, sem olhar para os lados.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula olhou para as bonecas em suas mãos – os vestidinhos rosas da cor das cortinas de seu quarto. Encrespou ligeiramente o rosto, as pálpebras descidas sobre os olhos pretos.</p>
<p style="text-align:justify;">Lançou, com raiva, as bonecas para longe. Levantou em um pulo e saiu, também, correndo do quarto. Maria corria, mas Ana Paula alcançou Maria no meio da sala. Envolveu a pequena mão marrom na sua e puxou Maria para o lado contrário:</p>
<p style="text-align:justify;">__ Vem. Vamos brincar.</p>
<p style="text-align:justify;">__ Não. Não quero.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula, feroz:</p>
<p style="text-align:justify;">__ Preta suja! Vem brincar!!</p>
<p style="text-align:justify;">__ Não quero! – Maria gritou alto ao tempo que se desvencilhava e corria pra cozinha, atrás da mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Por um momento, Ana Paula ficou ali, no meio da sala, enrubescendo lentamente. Os braços pendidos molemente ao longo do corpo; lábios entreabertos, olhos enganadoramente mortiços (um pouco úmidos) a mirar o corredor por onde Maria sumira. O vestido amarelo, cheio de laços e babados, fazendo-a um pouco ridícula (na medida em que contrastava com um amargor pouco infantil no rosto).</p>
<p style="text-align:justify;">__ Preta suja! Suja!!! – gritou com força; veias saltando pelo pescoço.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda vermelha subiu, desesperada, as escadas, batendo os pés com força nos degraus de madeira; correndo para o outro quarto cor-de-rosa, onde dormia o bebê feio, enrugado. Estacou na porta: o bebê feio sugava o peito de sua mãe. Ana Paula montou uma cara de choro.</p>
<p style="text-align:justify;">__ Mãaaaeee. A Maria  não quer brincar comigo – a voz melosa e irritante.</p>
<p style="text-align:justify;">Sua mãe não levantou os olhos, não fez aquela expressão imitando pesar e não estendeu os braços, chamando Ana Paula para o colo. Não fez voz de criança, não trocou – propositadamente – o ‘r’ pelo ‘l’ ao falar (“vem aqui, amolzinho&#8230;”). Não a consolou, não alisou seus cachos, não propôs brincarem de casinha, não ofereceu um bombom. Não chamou Maria de pretinha feia, não brincou de pocotó, não apertou Ana Paula com força, não sorriu, não&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">__ Não vê que sua irmã ‘tá mamando, Ana Paula. Vai brincar com suas bonecas. – voz da mãe irritada.</p>
<p style="text-align:justify;" align="center">* * *</p>
<p style="text-align:justify;">Fitava suas bonecas, no momento, já sem braços. Ana Paula nem precisava descer pra espiar. Já sabia que o irmão da Maria deveria estar na frente de uma panela, ajudando a fazer o almoço. Cozinha abafada, com cheiro gostoso de tempero e a Mãe de Maria – suja de tomate, cheirando a alho – a ninar Maria chorona. Mãe de Maria com baita sorrizão branco, dizendo que ia dar outro pito na patroazinha, pra’quela meninona parar de judiar dos outros. E com sorrizão, devia estar, de novo, enchendo o rosto da Maria chorona com beijos, dizendo que não necessitava chorar.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula já nem precisava descer pra espiar. A cena já gravada na mente por força da repetição.</p>
<p style="text-align:justify;">Pegou uma boneca pelo cabelo louro e quebrou-lhe a perna. Maria. Aquela menina chorona. Ia puxar o pixaim dela até ter tufos soltos na mão – aquela chorona. Corria, sempre, chorando pra mamãe preta dela. Pretinha suja. Ana Paula era patroazinha, não precisava da pretinha suja, não é? A mãe já dissera antes, não precisava. Ia pegar a pretinha. Ia, sim.</p>
<p style="text-align:justify;">E então, à tarde, encurralou Maria num canto do estábulo e bateu-lhe com uma vara. Bateu sem parar. Bateu, violenta, até seus cahos castanhos e sedosos desmancharem, até seu braço doer. Bateu até os vergões sangrarem pelas pernas da pretinha. E então pegou-a pelo braço, arrastou por sobre o chão de terra batida e trancou aquela Maria suja numa baia, ao canto.</p>
<p style="text-align:justify;">E então, súbito, o mundo parou. Ana Paula com respiração ainda acelerada, parada em frente a baia e o mundo parado ao se redor. Lentamente empalidecia, os lábios perdiam a cor, arfava. E, de repente, a vara em sua mão pareceu-lhe suja, quente – jogou-a para o lado.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula e o mundo parado, desprovido de sentido, desprovido de ação. O mundo marrom-madeira rodeando-a, cheirando a cocô de cavalo, um pateado nervoso em algum lugar. E, deu-se conta, mundo parado com  Maria chorando compulsivamente do outro lado da portinhola de madeira – muralha intransponível.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula franziu a testa –  que fazer agora?</p>
<p style="text-align:justify;">Olhos pretos de Ana Paula já marejados. Maria, preta suja, asquerosa – não devia chorar. Se perguntava, ferozmente, porquê Maria chorava. Era suja, não era? Não devia chorar, não devia!! Preta suja. Ana Paula gritou.</p>
<p style="text-align:justify;">__Preta suja! – Maria chorou mais alto.</p>
<p style="text-align:justify;">__ Não chora! Não chora! – gritava, já chorando também.</p>
<p style="text-align:justify;">__ Não chora! Não chora! Não chora, preta suja! Preta! – gritava, tensa, nas pontas dos pés, os punhos cerrados, brava, irada, por que Maria não parava de chorar? Por quê?</p>
<p style="text-align:justify;">__ Não chora!</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Paula murchou. Saiu correndo, desesperada, louca, para cozinha – com o coração na mão (inchado, sangrando). Ia pedir pra Mãe de Maria fazer Maria parar de chorar; pedir pra tirar Maria de lá, pois Maria tinha medo de escuro. Ia pedir, desesperada, pra Mãe de Maria pegar Maria no colo, sentar com ela sob o sol e beijar as pernas roliças de Maria até estas pararem de sangrar. Ia pedir pra Mãe de Maria fazer carinho na Maria e ia pedir pra Mãe de Maria bater na patroazinha até ela sangrar igual Maria, igualzinho Maria.</p>
<p style="text-align:justify;">Parou em frente à Mãe de Maria, com seu coração amorfo sangrando em suas mãos. Arfava, chorava, soluçava, atropelando palavras sem, no entanto, conseguir falar.</p>
<p style="text-align:justify;">E então: surpresa das surpresas. Mãe de Maria ainda suja de tomate, com mão cheirando a alho e o cabelo trançado comprido, comprido, sentou-se na cadeira e abriu baita sorrizão. Puxou Ana Paula para o colo e abraçou-a e disse coisas gostosas, coisas de mãe, que Ana Paula não – e jamais – compreendeu, só sentiu. Sentiu um conchego no avental amarfanhado e úmido jamais sentido no vestido de cetim azul da mãe. A aspereza da mão negra a limpar, com delicadeza infinita, as lágrimas de Ana Paula. E ria seu sorrizão branco e ninava Ana Paula e dizia coisas gostosas que a menina jamais, jamais entendeu. E – gostosura das gostosuras – Mãe de Maria beijou Ana Paula, beijou assim, gostoso e estalado; beijou bochecha branca  salgada igual beijava Maria.</p>
<p style="text-align:justify;">E então, Ana Paula apertou Mãe de Maria com força; já pensando em virar Maria chorona, pra ganhar beijo todo dia, todo dia.</p>
<p style="text-align:justify;" align="right">Fernanda Cristina<br />
29/05/2004</p>
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			<media:title type="html">De Paula</media:title>
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		<title>Dobradas</title>
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		<pubDate>Tue, 24 May 2011 19:42:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernanda Cristina</dc:creator>
				<category><![CDATA[poemandinhos]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p align="left">quero teu homem<br />
porque ele joga futebol com os amigos à<br />
tarde<br />
tarde, querida<br />
quero teu homem<br />
porque ele se debate na impossibilidade.<br />
de teorias filosóficas tardias<br />
amiga</p>
<p align="left">depois de tarde de amigos,<br />
todo filosofia, querida<br />
ele senta suado<br />
sobre as fronhas que acabei.<br />
de dobrar mimosamente<br />
exatamente<br />
como você me pediu</p>
<p align="left">esbravejo, amiga, com ele<br />
maculou suas fronhas exatamente<br />
dobradas</p>
<p align="left">ele gargalha, querida<br />
ele xinga-me:<br />
fresca</p>
<p align="left">quero teu homem<br />
de futebol de tardes<br />
de filosofias tardias<br />
impossíveis<br />
gargalhamos, querida<br />
reclamo das fronhas<br />
[chama-me fresca]<br />
exatamente, mimosamente<br />
dobradas.<br />
como você me pediu</p>
<p align="left">chama-me de fresca</p>
<p align="left">soberba e perfídia, amiga<br />
corroem os dele e os meus.<br />
risos<br />
pois ambos sabemos, querida:<br />
a fresca é você</p>
<p align="left">amiga, esfrego me<br />
dissimuladamente<br />
nele</p>
<p align="left">e ele sabe<br />
amiga querida<br />
fresca minha<br />
ele sabe.</p>
<p align="left">azar o seu</p>
<p align="left">(jan. 2007)</p>
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