Noturna de Solidão ou Agitato
Março 3, 2008
Velha. Sente-se velha. Aos 43 anos, indubitavelmente, velha. Agora, odeia esta casa, pois seu único amor em vida (sua mãe) já não a povoa. Morta há dois dias, sua mãe. E, subita e indubitavelmente, ela sente-se velha. Nesta noite, subita e indubitavelmente, é uma velha.
Das portas de vidro (da casa que agora odeia) ela vê o mar. Cola as mãos nas portas de vidro, tem o rosto congestionado, e olha o mar. Faz o esforço de um murmúrio, se esforça para ao menos murmurar, mas a garganta recusa o som. Olhos franzidos, ela abraça-se (tão velha, velha) e tenta pronunciar (não tem a força de um murmúrio): mãe.
A boca faz o movimento, mas o som se recusa (tem a força de uma velha; os lábios empapados de lágrimas abertos em um “O” perfeito): mãe? mãe? Força de uma velha chorona: não consegue pronunciar. Velha chorona e odeia-se por isso.
Olha o mar pela porta de vidro. Mar negro de noite. Ao alto, nuvens pumbleas correm desenfreadas pelo céu, loucas feito desgraças. A noite é dos mortos e daqueles aos quais só resta (só é possível) a vigília mórbida de um velório eterno. A boca torta borbulha o
murmúrio: “Noite, Meu Deus” (à frente dela um abismo de choro compulsivo).
Lábios empapados de lágrimas, contorcidos de dor de quase-choro. Abraçada a si mesma, anda pela casa odiada. Evita fechar os olhos, pois, sob as pálpebras fechadas estão impressas imagens de violinistas sangrados e sem lábios, mórbidos. Nuvens pumbleas correm pelo céu, desenfreadas como as piores desgraças. Sente-se velha e não nota que, ao passar pelos vasos de pedra negra de sua bela sala, os lírios murcham e fedem – nojentos e mortos.
Ela crava as unhas na pele, quando envolve o pescoço com as próprias mãos. Violinistas de faces descarnadas, mar revolto e sua mãe não está ali. Unhas adentram a própria pele sem perdão algum, nenhum perdão, nenhum. Sua silhueta é efêmera dentro da casa escura. Lábios (contorcidos) afogados em lágrimas, rosto congestionado. “Noite, Meu Deus”. Os lírios fedendo horrendamente e ela não nota, pois tem desespero na voz de velha: “Que noite”, ela sussurra.
Fernanda Cristina
(23/02/07)
O quando se fosse antes ou “o que é, mesmo quando o antes fora nunca”
Fevereiro 24, 2008
Pois, então, ele dissera: “fosse antes, nunca teria me notado. Ou se sim…”.
Pois, então, ela respondera apenas: “pára”. E talvez ela tenha parecido rude. Mas, na extensão exata da palavra pára, foi dito mais coisas. Na extensão e duração de som exatos desta palavra ela murmurou assim:
Quando (se) fosse antes, com o pouco de verdade que me deixam, sei (penso) o que iria acontecer: D’um modo ou d’outro, em uma roda extensa de conversa entre conhecidos e desconhecidos, te notaria (pois, mesmo se antes, você poderia fugir dos ditos sarcásticos-irônicos colados em você?). Pois em roda extensa de conhecidos e desconhecidos você se negaria a um dito sarcástico-irônico, um que seja?
Pois (com o pouco de imaginação que me deixam) penso que você não se negaria um (ao menos um, mesmo que fugidio) dito destes, mesmo quando fosse antes. E na roda de conversas, tendo você dito algo-sarcasmo-ironia, eu provavelmente acharia engraçado e, com a verdade que me resta, sei que eu gargalharia.
E como não te notar, se sempre busco (às vezes, ao menos) a possibilidade de sorrir?
Ela murmurou tudo isso (murmurou perdescondido, embrenhado nos vãos das letras, tudo isso grudado na grafia, tudo isso escalando o som da palavra numa tentativa desengonçada de fuga, murmurou tudo isso) precisamente dentro do tamanho e som exato da palavra pára.
morar com papai
Fevereiro 21, 2008
Passarinho não tem graça nenhuma. Tudo bem, é bonitinho, canta fininho de manhã – mas não tem graça nenhuma. Mamãe adora, adora o Teco passarinho. Ela chama ele de Teco. Passarinho burro. Só sabe ficar cantando sempre do mesmo jeito, ali, engaiolado. Não se pode pegar, não pode acariciar, ele não pensa. Passarinho burro.
Mas, mais burro que o Teco é o Cassabi. O cachorro burro. Todo cachorro é burro, mais o Cassabi é mais. É o burro do burro do meu irmão. Cassabi lambe meu pé e pula contente quando me vê – mas come meus cadernos, rói os móveis, faz cocô no tapete de casa. Cachorro burro.
Linda mesmo é minha gatinha. Minha e do papai. Independente e carinhosa – não me acorda cantando fino de manhã, não come minhas meias. Dorme na minha cama e acorda comigo de manhã e anda graciosamente pelo quarto e olha lindamente nos meus olhos. Só nos meus olhos e do papai. Olhos verdes em olhos verdes – só nós três temos lindos olhos verdes. Camélia é linda, minha linda.
Papai também adorava Camélia, vivíamos bem assim. Mas desde que papai foi embora só eu defendo Camélia – é uma tirania contra nós duas, agora mamãe odeia papai e, assim, odeia Camélia. Gata linda e esperta. Muito melhor que cachorro, bem mais divertida que passarinho.
Enquanto o Henrique burro brincava com o burro Cassabi, disse que o cão era o topo da cadeia alimentar de casa – aprendera sobre cadeia alimentar em uma aula de biologia na semana passada. Moleque burro! Falei pra ele que a humanidade havia desequilibrado a ordem natural (aprendi na aula de ontem) – e ele devia ter entendido.
Assim que Henrique e mamãe foram ao mercado, coloquei vidro quebrado na ração do Cassabi e realizei o sonho da Camélia: dei o Teco pra ela comer. Certeza. Agora é certeza que, quando mamãe chegar vai me mandar morar com o papai. Só eu, Camélia e o papai.
Fernanda Cristina
(25/03/2006)
a caixa necessária
Fevereiro 18, 2008
Em um movimento involuntário, nos meus momentos mais importantes de vida me apercebo sozinha. Nestes momentos, enquanto volto os olhos pra dentro do peito (momento de inflexão), eu, involuntariamente, sempre manejo entre os dedos um objeto. Alma remoendo tudo, olhos varrendo nada: nas mãos um objeto achado, surrupiado involuntariamente do chão, sempre.
De cada importante momento de vida guardei estes pequenos objetos (destrinchados, deflagrados, surrados por meus dedos). Penso que algum sumo brota de minha carne e corre a se concentrar nestes objetos. Sumos de colores, risos, desamores, dor. Cada objeto um desespero em vida.
Hoje estes objetos estão todos dis-postos entre meus livros, roupas, papéis.
Perescondidos em meu quarto meus objetos de vida: uma pedra, uma fita colorida, um enorme pingente em forma de gato, uma borboleta de papel, uma flor seca, um pedaço de carta (nunca relida, proibida).
Preciso cuidar melhor de minhas entranhas; alguém aí tem uma caixa (que seja brilhante, obrigo-me que seja colorida e brilhante) pra que eu possa guardar minha vida?
Registro Compulsivo
Fevereiro 18, 2008
porque a poesia fica toda solta por aí. porque os literatos palram desesperados e sozinhos por entre estes soltos.
e a solitude e o desenfreio são tão grandes, que entre a poesia solta e o esforço de traduzí-la, tornamo-nos compulsivos: necessidade de registrar tudo.
e o registro faz-se compulsório e obriga-nos à literatura e não há como fugir e doença (e sina e doidera) literata.
Poema de Amor
Fevereiro 12, 2008
Conto o que aconteceu: voavam por aí, as borboletas, todas as três. Súbito: estapei-as e as colei em minha pele. Minhas. Ao se aferroarem a mim, as borboletas verteram meu sangue. Como vingança, enegreci-as e fiz delas mariposas. Cinderelas ao contrário (ao meio dia se tornaram borralheiras). Sim, deste jeito são menos belas; mas, agora que marcadas a ferro em mim, são (na medida exata, na medida precisa, justa) eu.
Agitato
Fevereiro 7, 2008
Às vezes, surpreendo uma pieguice em Cecília e isso me põe impaciências de irritações (mas sempre pequenas). No entanto, posso eu lá desejar que ela se rasgue desacralizações, quando em verdade, parece que ela não viveu estas?
Mas, de Cecília, é cravada a verdade do que é fazer da poesia um poema. E para o bem da verdade, é preciso saber ler o poema (para que ele doa no peito, se tornando poesia). Ou, antes que saber ler, é preciso estar desarmado. Desarme-se e: pimba! O poema (a mão) de Cecília agarra com força (aperta, piedade alguma) suas entranhas de leitor e torce-as, levemente. Pois, na verdade, Cecília sabe fazer.
Conquanto, a verdade será plena se saber ler (ou, antes) estiver desarmado. Daí o conselho: deite na cama, espere os olhos se turvarem de cansaço, espere o limbo entre o sonho e a realidade; espera e põe-se a ler que: pimba! Cecília te pega.
Deitada em minha cama, depois que li Cecília, ficou difícil conciliar o sono. Fiquei menina desarmada, perdida entre as cobertas, no escuro, com a boca fechada de ataranto e sob minhas pálpebras fechadas (trêmulas) ficaram impressas silhuetas vagas de moça feita de solidões noturnas, suspiros de dor de morte, medos de marejar os olhos, muito vento, muito vento, vento a agitar tudo. A agitar-me o âmago. Fiquei moça perdida medrosa, pois Cecília sabe fazer.
Conselho sério_ leia devagar, saboreie palavras:
Agitato
(Cecília Meireles no livro Nunca Mais…)
Os violinos choram, soturnos,
dentro da noite morta e triste,
elegias vãs de Noturnos…
E nada existe… nada existe…
Sombras. A câmara apagada…
Sombras… Meu vulto é longe… ausente
Silêncio… Calma… Sonho… Nada…
Vago, leve, indecisamente…
Noite. Que noite!… Pelas bordas
das jarras negras, morrem lírios…
Chopin. Falecem pelas cordas
Trêmulas, trêmulos martírios…
Andam, no vento, aromas soltos,
saudades lentas… Alto, passa
o véu do luar nos céus revoltos,
cheios de signos de desgraça…
calma
Janeiro 26, 2008
dificil retratar sonho. dificil.
sonho com ela constantemente (desesperadamente, doridamente, constantemente, eu)
constantemente ela tinha medo
de coisas invisiveis,
via pessoas, via meninas brancas vestidas de branco onde nao havia ninguem
e eu dizia calma, calma
não há nenhuma menina ali, calma
calma, calma
mentira.
tenho medo até hoje
:é que ele ama: volutas de humo
Janeiro 22, 2008
[adendo: porque são dois os movimentos iniciais de auto-destruição]
Do Primeiro Movimento
:é que ele ama
vive horrores ao espera-la,
mas, não entende que ama
sozinho, à espera
é nada.
sentido nenhum nas coisas: copos vazios.
bancos da praça,
carros,
pessoas,
céu cinza
são copos vazios
tudo suspenso, pois, espera.
não vê, não cheira, não compreende.
nada o esfola ou o agrada
o outro [ela] não chegou.
é que ama, mas não sabe.
espera. e
ela surge na esquina
ele inebria-se.
(en)torna-se o mundo copos cheios
de tintos doces
gostosuras:
o carro é feio
o céu é chuva
o pipoqueiro é engraçado
inebrios de alegria
colores de companheirismo
copo: transbordos
moleza e riso
inebrios de álcool
tinto de gostosuras
Do Segundo Movimento
:Volutas de Humo*
(Kevin Johansen)
Volutas de humo que flotan
Alrededor de mi cuerpo
Con que simpleza se desintegran
En cuanto las toca el viento
Conversar, conversar con vos quisiera
Decirte, decirte lo que yo siento…
¿Por qué siempre te necesito
Cuánto más solo me encuentro?
Éste, éste, tu encanto fatal
Es lo único que no entiendo
Sabiendo que, poco a poco
Mi vida estás consumiendo…
Cigarrillo forrado de blanco
El color de la pureza y,
¿Qué llevás en el alma? Lo negro…
¡Cuántos somos los que nos aferramos
A tus pitadas profundas y exhalamos de una vez!
(Mientras tragamos tu veneno…).
Apartarte, apartarte yo quisiera
Pero sé que no puedo
Porque en cada devenir de esta vida que padecemos
En mi propia cobardía más me aferro
A tu maldito veneno…
Te tomé como juguete de purrete
Y hoy, que sos parte mía
No sabés cuánto me arrepiento
Ya sin vos, ya sin vos no sé vivir
Porque sos mi companero
Ese amigo que busqué en la noche solitaria
Mientras contemplaba los cielos
Y que hablaba de mis sueños, mis tristezas y alegrías
Mientras vos, poco a poco
En mis dedos te consumías
Y así, así me quitaste el aliento
No me dejás respirar
Manchaste todos mis dedos
Y por dentro devoraste gran parte de mi cuerpo…
Pero, ¿qué te puedo reprochar?
Si fuiste mi compañero…
Y otra vez, otra vez te vuelvo a encender
Y mientras miro tus volutas de humo
Que envuelven todo mi cuerpo
Te tengo que decir, a mi pesar
Que seguís siendo mi mejor compañero…
*agradecimento ao menino-bobo-da-barba-ruiva, que apresentou-nos a letra desta música
.cintura de mulher
Janeiro 17, 2008
Meu caro, não se prive deste prazer, não se prive do se encantar: cintura de mulher. Olhe languidamente, pasme. Querido, fique pasmado se for o caso. Não se prive.
É fina, mesmo que seja larga. É sempre finura, pois é divisa ondulada entre os seios e os quadris. Olhe, deixe-se olhar. Seja lento neste olhar, lento, lentidão de languidez. Olhe enquanto a moça dança, meu caro. Olhe.
A moça dança, lenta; embora a música seja rápida. Ritmo pulsante.
A moça dança, usa saia. Usa, veste, uma saia jeans. Seja lento no olhar, a saia é justa, toda justa. A saia é curta, exibe pernas, longas longilíneas. Olhe lentamente, languidamente. A camiseta dela é larga, meu caro. Quadris é força. Ela dança lentamente. Veja a moça dançando, observe. Os quadris ondulam, vagarosos, apertados pelo jeans, sufocados. Ritmo de desejos. Veja: a saia aperta os quadris, machuca a carne (e a moça não se importa). Veja, meu caro, o jeans justo (de justiça e justeza) sugere a redondeza, sugere a força. Os quadris dançam, lentos na exibição de sua força. Sugere ritmos. Veja, observe. Os seios ondulam, seios pedem. Seios são encanto. Ela dança e eles acompanham, ritmados seios. Olhe: seios pequenos, bicos mal disfarçados pela camiseta larga. Seios: foco da luxúria. Olhe, querido, e entenda: entre os seios e os quadris: a cintura. A moça dança, lenta em sua languidez. Cintura de mulher, divisa ondulada em pele com textura de pêssego (sempre, pra sempre esta textura, em todas as mulheres). Entenda, meu caro; encante-se. Ela dança, seus olhos observam vagarosos; meu querido, seus olhos ficam lentos e turvados de desejo. Veja. A cintura abre-se ao alto para exibir os seios, abre-se abaixo pra sugerir o encaixe dos quadris. Veja, encante-se. Querido, permita-se esse prazer. Pasme, lentamente.
É fina, mesmo que seja larga. cintura de mulher.
Pasme, homem. fique pasmo. Ela dançará em sua direção, sem ter exata consciência do encanto que a própria cintura (expressão perfeita de sua feminilidade) exercerá em você. A moça virá dançando, a cintura a ondular, levando os quadris para um lado e os seios para o outro. E você, rendido, terá seus olhos bobos (turvos de desejo) presos na cintura dela.
Veja a moça enquanto ela dança. Cintura se torce ritmicamente, lenta. Os quadris que se mexem sugerem luxúria. Olhe meu caro, permita-se olhar. A camiseta larga deixa entrever (apenas entrever) o balanço dos seios. O cabelo dela é encanto. As pernas dobram-se (lisas, pêssego, compridas) na sugestão de levar os quadris (lentos-balouçantes em sua languidez) até o chão. Ela dançará em sua frente, ela dançará apenas para diversão dela; ela mal dá atenção à você, meu caro. Ela gosta de dançar, dança porque gosta; no entanto, mal atenta que ela própria é encanto. cintura de mulher. Pasme, meu querido, pois, a moça mal tem consciência do encanto que deixa o ar quente a sua volta, ar grasso de sensualidade. Você, pobre homem pasmo, mal conterá o gesto automático de segurar-lhe a cintura. Suas mãos apertarão a finura com sofreguidão. Você não levantará os olhos para os olhos dela. Meu caro, você ficará com os olhos pregados na cintura: que se abre acima, para abarcar os seios, que se abre abaixo, suportando o movimento dos quadris, sôfregos dentro da justa saia jeans. Você, homem, ficará encantado, correrá as mãos pela cintura, incapaz de não realizar este gesto. Você ponderará que poderia (achando-se macho forte, como direito de macho forte) quebrar a moça ao meio, exatamente na cintura. Pois, você meu caro é forte e a cintura é fineza de pêssego.
Mexerá na camiseta larga e surrada (pano sugestivo), moverá as mãos pela cintura dela, levantará ligeiramente a camiseta, incapaz de fugir a essa carícia: visão da cintura.
Você, querido, será incapaz de levantar os olhos e fitar o rosto da moça, pois estará encantado: cintura de mulher. Talvez, se você (meu caro homem idiota) levantasse os olhos para a moça veria, no rosto dela, algum sorriso surpreso (pois a moça se perguntará o que levara você a tomá-la desta forma). Mas, ainda que surpreso, o sorriso será também de vitória (e escárnio, se me permite avisar).
Fernanda Cristina
14/01/08
meus olhos da menina (ou a menina dos meu olhos)
Janeiro 8, 2008
Valquíria nunca podia imaginar que desgostaria tanto de uma criança - sempre se ajustara otimamente com o viver infantil, de riso e choro, geralmente, fáceis. Só não eram fáceis os de Bruna: menina do capeta.
- Não quero almoçar! - sempre começava assim. Primeiro Bruna gritava com estridência, depois, choraria de modo irritante. No momento, Bruna tinha os cabelos (de cachos minúsculos, junto aos ombros) todo desgrenhado, as mãos sujas de barro, o rosto melado, a face com as marcas dos dedos minúsculos e sujos e os olhos verdes, verdes.
- Não quero almoçar!!!
Valquíria bufou, irritada. Já havia decido, procuraria outro emprego a partir do dia seguinte.
- Não quero!!! - menina do capeta, desobediente do inferno.
Ao ver que a babá continuava resignada, mas obviamente irritada, sentada ali no banco junto à praça, Bruna retornou aos folguedos com as outras crianças. Valquíria se quedou a observar a tirania de Bruna, gritando, mandando nas outras crianças, agredindo verbal ou fisicamente quando achava necessário. A menina tinha só cinco anos. Valquíria às vezes se perguntava, intrigada, como Bruna poderia ser daquele jeito. Havia muito tempo que já se abstivera de tentar refrear a voluntariedade e agressividade, quase ingênua, de Bruna - agora só observava. A babá remexeu-se no banco de madeira, sob as árvores frondosas; deixou de ouvir o barulho cadenciado das correntes enferrujadas dos balanços e pôs-se a atentar para o grupo de crianças que brincava, no meio do tanque de areia, com Bruna.
O menino mais velho, recém chegado, dirigiu-se à Bruna:
- Minha mãe disse que sua mãe é maluca. Doidinha de pedra…
Bruna gritou de volta:
- Ela não é minha mãe!!!
- Mãe doida! - o menino cantarolou devagar, abaixando-se para por o rosto a frente do rosto de Bruna. -Mãe doidaaa… - cantarolou mais uma vez, com mais força.
- Ela não é minha mãe! - Valquíria viu os olhos de Bruna começarem a marejar, imaginou a ardência nos olhos e a bola inexistente presa na garganta. Chegou a se preparar para levantar e por um basta na maldade do menino. Entretanto, o pensamento de que Bruna precisava tomar umas lições refreou-a e, quando as crianças (que hesitaram por apenas um segundo e depois) juntaram-se ao coro, a babá até se divertiu levemente em ver Bruna sem ação, voltando o rosto de um para o outro, soltando palavrões.
- Mãe doida! Mãe doida! Mãe doida! - vozes estridentes.
Foi muito rápido. Confusão de pernas e braços e areia e cabelos, dançando, se agredindo, ao som dos gritos infantis. Quando Valquíria se aproximou, Bruna estava sobre o menino, batendo a cabeça do garoto contra a areia, gritando sem fôlego:
- Ela não é doida! Não é! Não é! Não é!
Valquíria pegou a menina no colo. O menino se sentou, chorando, no chão. A mãe deste vinha do outro lado da praça (meio correndo, meio andando; agitando no alto um punho fechado), gritando ofensas para Bruna. Valquíria não lhe deu atenção: atravessou a rua com a menina silenciosa, de corpo estranhamente quieto, no colo (a cabeça encaracolada e desgrenhada aconchegada carinhosamente no pescoço da babá - Valquíria estranhou esse carinho insuspeitável e furtivo - e quase gostou de Bruna). O portão de ferro rebuscado abriu rangendo, cantando. Valquíria tinha certeza que conseguiria dar o almoço à menina sem problemas.
(…)
Fernanda Cristina
passeia a mão por toda extensão da redoma
Dezembro 31, 2007
Olhei-o com meus olhos enormes, de desprezo embebido em ódio. Cuspi sobre a redoma de vidro que o protege, cuspi com força. Acordei-o do sono. Os cantos de meus lábios, pendidos pra baixo, inquiriram-no sem única palavra. Como ele me ignorou, espalmei as mãos sobre o vidro grosso e bati-as repetidamente sobre a superfície lisa. Ele mexeu-se devagar dentro da redoma, perfeitamente redonda. Correu os dedos levemente por sua extensão, sem me fitar. Preso, idiotamente, pra sempre ali. Minha boca fechada, de pena, inquiriu-o novamente – meus surtos de desprezo eloqüentes em meus olhos. Então, ele levantou os olhos (muito calmamente), abriu os braços e expôs o torso nu. Respondeu-me monologando:
“Único meio: brotei do vidro. Transparência estranha de areia derretida copulou-se e pariu-me. Do vidro brotara a carne embebida em sangue, carne embebida em pêlos, carne embebida em lágrimas, carne embebida em cabelos, carne embebida em cartilagens, carne embebida em saliva, carne embebida em peles, carne embebida em suores. Mas tenho chumbo também, sim, nas solas dos pés, por dentro: chumbo embebido em carne, sangue, pêlos, suores…
Dores e sorrisos e choros e alegrias dos outros resvalam lentas, pelo lado de fora, escorrem gosmentas e tristes pelo vidro. Não, não ignoro-as, mas não engulo-as. Não sofro. Remexo-me lento em minha redoma de vidro; meus movimentos: volúpias de solidões invisíveis (aos outros, pois, não vêem o vidro: claríssimo). Suas dores escorrem, vejo-as, mas não as sinto. Nenhuma fissura permite corpos de emoções estranhos, nenhum orifício permite ventos de alegrias ou dores, dos outros.
Problema grande é quando, sozinho, farpas (minhas) me sangram e choro. E tenho medo do chumbo por dentro das solas de meus pés. Passeio as mãos por toda extensão da redoma, num quase desejo de alcançar alguém. Lágrimas escapam-me das entranhas: estendo a mão e tento segurar a enxurrada, mas, brotam furiosas. Os pés latejam. Lágrimas caem, juntam-se, molham-me e desespero-me: inundam pouco a pouco a redoma. Começam umedecendo o fundo, então formam uma poça e passeio as mãos por toda extensão circular do vidro, desejo inconsciente de alcançar alguém. Tento refugar as entranhas, impedi-las de torcer e cuspir e jorrar água salgada (de ruindade). Tento, tento. O mar sobe e não se esvai: sair por onde? Sair por onde? O desespero de choro só faz aumentar: mar. Só o autocontrole pode salvar. Mar no pescoço: desespero-me, chacoalho as pernas dentro d’água, pra tentar me manter na superfície. Deslizo, lento, as mãos pelo vidro, desejo arcaico de alcançar alguém. Os pés pesam. Chumbo de medo. Minha morte, então? A morte? E pior: de tragédias ridículas, pois, ínfimas, florescendo sozinhas por entre o vidro. Morte ridícula? Os pés pesam: morte, então? Minha morte e, ainda por cima, ridícula?
Entretanto, nunca me afogo. Mia carne das feridas (pus e sangue de tragédias ínfimas e ridículas, pois, solitárias) absorve, com sofreguidão, litro pós litro de lágrimas. O vidro seca, escorrego por ele e observo, altivo mas compassivo, as lágrimas e risos, dos outros. Esqueço que passo as mãos lentamente pelo vidro.
Porém, o chumbo pesado, mas desprezado, às vezes lateja – avisando que, dia ou outro, as dores de mar vão retornar. Passeio as mãos e sinto-me ridículo”.
Quando baixei as pálpebras sobre meus olhos redondos e límpidos (belos e falsos como os de bonecas) ele compreendeu: não gosto dele.
Fernanda Cristina
22/05/07
Ao fazer o jantar
Dezembro 23, 2007
Porque, ainda fazemos a mesma quantidade de comida que temos feito há três anos atrás. E, agora, sempre sobra comida, nunca acertamos na quantidade.
Cada vez que sobra comida, lembro da pessoa que, agora, falta dentro de nossa casa. Ao pegar a colher e mexer a carne na panela, assalta-me a lembrança dela, daquela que está ausente - pra sempre (e a palavra sempre nunca foi tão definitiva).
Durante milésimos de segundos debato-me em dúvida: permito que a lembrança daquela que me falta engolfe meu corpo (meus olhos que liqüefazem, meus lábios que tremem, fracos e impotentes)? Ou exorto a lembrança, fugindo da tristeza que me derrubará? Decido rápido: deixo que a lembrança me tome o corpo, que tombe meus olhos, que me tire da cozinha, que me volva no passado, que destrua a firmeza de meus lábios (que tremerão, vergonhosamente tremerão) que me lance na presença (que no agora e ao futuro será definitivamente ausência) dela.
Gostava de dar-lhe a comida na boca, um dos meus momentos de vida favoritos. Ela me olhava de lado, os olhos redondos a piscar (fazendo charme), sorria seu sorriso lindo (que hoje me dói, que a descrevê-lo, me põe a chorar) e dizia: “Humm, papa gostoso!”: imitando fala de criança (como quando fazia comigo, na minha própria infância, ao me incitar a comer). E abria a boca para que eu lhe desse outra colherada de comida. Ou então sorria e dizia com o carinho intrínseco que tinha sua voz: “Que comida cheirosa, fia. Foi você que fez?”
Retorno ao presente e a sombra de tristeza que escapa por meus olhos (e deita sobre cada coisa que vejo) empurra meu âmago pra baixo e não tenho mais vontade de comer. Talvez, a maior homenagem a sua ausência seria ter pegado a carne, a panela, a colher e jogado tudo lixo adentro.
Quase meu primeiro amor
Dezembro 16, 2007
Eu sou feio. Sem brincadeira ou falsos pudores: sou feio mesmo! É claro, tem todo aquele discurso sobre beleza interior, padrões impostos pela mídia, talvez a 250 anos atrás eu fosse um ícone da beleza masculina e toda aquela merda - eu concordo com tudo isso, o raciocínio é lógico, mas, foda-se o intelectualismo e a conformidade. Olho-me no espelho. Eu me olho. Mandei meu rosto mirrado ir se foder - ele não foi. Continua lá, me encarando idiotamente, desafiador, dizendo sem dizer: feio.
Minha face feia - de orelhas abruptas, grandes, orgulhosas - a viu. Vadia. Grandíssima vadia. Vulgar. Porque, vadia rica é charmosa, é sexy e vadia pobre é vulgar. Nojenta, pra ser exato.
Eu sou feio e minha prima é nojenta. Bunda larga, calça branca, calcinha minúscula. A barriga grande esparramada para os lados, umbigo de fora, piercing, blusa justa cor-de-rosa e peitos quase pulando pra fora. Vulgar.
Churrasco de família. Espiando pela minha janela, bati uma enquanto ela e o namorado se atracavam, escondidos (sou feio; nunca me atraquei com ninguém - escondido ou não).
Então, quando eu menos esperava, quase meu primeiro amor. Família toda foi embora; a vadia insistiu e choramingou que queria dormir aqui, na casa da vó. E de madrugada sentou na beirada da minha cama, vestindo camisola branca com coraçõezinhos rosas, fazendo carinho no meu cabelo ralo e fazendo boquinhas enquanto murmurava - a boca pintada de vermelho berrante.
Pergunta quantas meninas eu já tinha comido.
Sou feio. - repliquei, as minhas orelhas orgulhosas (enormes) enrubescendo.
Ah! - exclamou rápido e riu e tirou a camisola e, roliça, espalhou toda sua gordura sobre minha cama, ao meu lado. Linda.
Colocou a mão dentro da calça do meu pijama - vergonha das vergonhas: gozei no mesmo instante.
Ela disse que não tinha importância e eu passei o resto da noite chorando nos peitos dela, a monologar, pegajosamente, sobre minha feiura - meu membro (vergonha das vergonhas): impotente.
A vadia - aquela gorda sem coração - nunca mais me procurou.
Dias
Dezembro 16, 2007
Prole do tempo dias hipocríticos
Tapados, mudos, dervixes descalços
Seguindo sós em filas sem mais fim
Com diademas e adornos nas mãos
Oferecem regalos para todos
Pão, reinos, astros e os céus que os sustém
E eu, em meu jardim curvo, olhava a pompa
E esquecia meus desejos matinais
Na pressa colhi ervas e maçãs
E saiu e voltou, silente, o dia
Vi tarde, em seu solene aro, o desdém
Ralph Waldo Emerson
Quando Choro
Dezembro 13, 2007
rebento de tremores
em lábios de tristeza
só me enleam
[me quebram]
quando sozinha
chão [mole] de incertezas